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há 1 dia
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A crise da narração e a psicologia analítica: resistência simbólica em tempos de desencantamento

 


Patrícia Braga do Desterro[1]


Somos todos, no campo da psicoterapia, não médicos

empiristas, mas trabalhadores de histórias.

— James Hillman


Introdução


O presente artigo propõe uma reflexão sobre o papel das narrativas e da literatura na constituição dos sujeitos em uma sociedade marcada pelo esvaziamento simbólico e pela pobreza de experiências, onde há uma avalanche de informações que, por vezes, nos atordoa, nos afastando de nós mesmos. Na contemporaneidade, observa-se um uso exacerbado das narrativas como ferramenta de convencimento e mercantilização, especialmente nas mídias sociais, onde o ato de narrar frequentemente se associa à comercialização de produtos e à construção de imagens - storytelling. Vivemos um tempo em que há um excesso de comunicação e esvaziamento de experiências narráveis. Nesse contexto, busca-se compreender como se configura a crise da narração — tal como apontada por autores como Walter Benjamin e Byung-Chul Han — e quais são suas implicações para o processo de individuação.

Partindo dessa problematização, o artigo busca articular as contribuições teóricas desses pensadores com a Psicologia Analítica, especialmente a partir da obra de Carl Gustav Jung, a fim de compreender a função simbólica das histórias e sua relevância na constituição psíquica do sujeito. Entende-se aqui a ficção literária como prática simbólica essencial, capaz de nos reconectar com o inconsciente restabelecendo a ligação do eu com o mundo.

Essa discussão apresenta relevância para o campo da Psicologia Analítica e o Sujeito Contemporâneo, pois parte da compreensão de que a linguagem simbólica é estruturante do psiquismo humano e que, no mundo contemporâneo, nos encontramos atravessados por uma pobreza de experiências narráveis que se reflete também num esvaziamento do valor simbólico das narrativas, o que acaba por dificultar o acesso e a integração de conteúdos psíquicos profundos.

Vale ressaltar que o termo narrativa é usado neste trabalho como histórias narráveis que assumem relevância simbólica na constituição psíquica do sujeito, se aplicando tanto aos textos ficcionais (contos de fada, mitos, obras literárias), como às histórias narradas pelos sujeitos em sua experiência subjetiva a partir de suas vivências, numa compreensão de que as histórias que narramos sobre nós mesmos também são uma forma de ficção. Essa visão está alinhada ao conceito de trama, conforme apresentado por Hillman (2010), que revela a intenção humana ao narrar um fato, buscando atribuir um sentido, uma sucessão de acontecimentos relacionados. Dessa forma, de acordo com esse autor, “apenas quando uma narrativa recebe coerência interna em termos das profundidades da natureza humana é que temos ficção, e para essa ficção precisamos ter uma trama.” (Hillman, 2010, p.20).

Ao valorizar a inserção de narrativas ficcionais no setting terapêutico e em espaços de escuta e diálogo, o presente artigo busca apontar caminhos que possibilitem a ampliação de vínculos com o imaginário e com as imagens arquetípicas que nos habitam, possibilitando uma maior integração dos conteúdos psíquicos para a construção de uma subjetividade mais integrada, sensível e humanizada.

Como objetivos, este artigo busca analisar os efeitos da crise da narração sobre o processo de individuação, explorando o papel das narrativas simbólicas no desenvolvimento psíquico do sujeito. Pretende ainda refletir sobre o esvaziamento das experiências narráveis no contexto da hiperinformação e compreender a importância das narrativas simbólicas na escuta clínica e na constituição subjetiva do ser humano.

A metodologia se baseia numa pesquisa bibliográfica de caráter teórico-reflexivo de natureza qualitativa que se fundamenta numa revisão de autores clássicos e contemporâneos. A análise parte do conceito de narrativa a partir de Walter Benjamin, dissertando sobre o empobrecimento das experiências narráveis e da crítica tecida pelo sul-coreano Byung-Chul Han ao excesso de informação e à perda da densidade simbólica na contemporaneidade. A partir da teoria junguiana, busca-se discutir os conceitos de inconsciente coletivo, arquétipo e individuação e o papel da literatura no processo de simbolização no setting terapêutico em diálogo com autores como James Hillman, Marie-Louise Von Franz, Nise da Silveira e Walter Boechat. 

 

A crise da narração e o empobrecimento simbólico


No ensaio O Narrador, produzido no início do século XX — um período histórico marcado por duas grandes guerras que devastaram a Europa —, o filósofo alemão Walter Benjamin (2012) afirma que a arte de narrar, assim como a figura do narrador, encontra-se cada vez mais distante de nós. O autor nos fala de uma pobreza de experiências narráveis, em que a narrativa está em vias de extinção. Para Benjamin, narrar consiste na capacidade de expressar, por meio de histórias, nossas experiências — experiências essas que podem ter sido vivenciadas diretamente ou conhecidas por intermédio de outra pessoa.

As experiências são vivências que merecem ser contadas, pois carregam um valor e um sentido que contribuem para a constituição do ser. Experienciar o mundo relaciona-se à forma como percebemos a realidade, à maneira como nossas vivências nos constituem e nos ajudam a constituir o mundo em interação com outros seres. Essas experiências possibilitam a tessitura de narrativas — narrativas que possuem profundidade e que nos ancoram como sujeitos da experiência. Narrar é, portanto, a faculdade de intercambiar experiências.

Contudo, a maneira como a vida se organiza na sociedade contemporânea tem nos tirado essa capacidade de narrar e de compartilhar. “É como se estivéssemos privados de uma faculdade que nos parecia segura e inalienável: a faculdade de narrar experiências”, escreve Benjamin (2012). No ensaio, ele relata que os soldados retornavam mudos dos campos de batalha da Primeira Guerra Mundial — como se fosse impossível expressar, por meio de palavras, a dor testemunhada e vivida. Como expressar algo que nos assombra a ponto de nos emudecer?

Ao longo do texto, o autor argumenta que estamos vivendo experiências cada vez mais empobrecidas, esvaziadas de sentido, que não deixam margem para a narração. Já não conseguimos intercambiar experiências; vivemos o tempo da notícia. As histórias que outrora vinham de longe e eram passadas de geração em geração por meio da palavra cedem lugar ao emudecimento do ato narrativo, substituído pela informação.

As transformações brutais ocorridas no início do século XX foram tão marcantes que, da noite para o dia, uma geração inteira viu-se desabrigada do mundo que conhecia.

Quase um século depois, o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han (2023), em seu livro A crise da narração, retoma essa reflexão. Para ele, há um vazio narrativo em nossa sociedade, embora o termo "narração" seja usado de forma inflacionada. As narrativas, segundo o autor, estão esvaziadas de sentido e deixaram de nos ancorar no ser. Vivemos uma época pós-narrativa: as narrativas perderam sua força originária, sua gravidade, seu mistério e até sua magia (HAN, 2023, p. 10).

As narrativas deixaram de ser vinculantes ou unificadoras; passaram a ser utilizadas como mecanismos de convencimento para o aumento do consumo. Para Han, há uma clara distinção entre narração e informação. A sociedade da informação se apresenta dissociada do ser. Estamos informados, mas desorientados.

Essa sociedade vive um tempo fragmentado, preso ao presente imediato. A narração, por sua vez, exige o deslocamento desse imediatismo: requer profundidade, escuta atenta, imersão. Ela pressupõe presença. A tecnologia nos vende uma ideia de proximidade que, na realidade, não se concretiza. Estamos cada vez mais conectados e, paradoxalmente, mais distantes uns dos outros. Segundo Han, os smartphones foram concebidos como aparelhos de informação — e não de narração. Apesar da ampla rede de compartilhamento de dados, não há, de fato, narração. Vivemos mais impacientes e desatentos. A narrativa exige atenção, escuta e empatia. Exige proximidade.

Estamos imersos em uma intensa rede de informações que nos impede de vivenciar emoções com profundidade. Ao mesmo tempo em que nos entristecemos com um acontecimento trágico, podemos nos enternecer com um vídeo fofo ou nos indignar com uma notícia política. Uma sucessão de estímulos que consome nosso tempo e nos rouba a possibilidade de reflexão. O tempo da narrativa é outro: ele nos impele a ouvir, participar, estar atentos. Ele nos conecta com o outro — e também com nosso eu mais profundo.

Na modernidade tardia, vivemos uma vida desnuda, carente de sentido e de fantasia. Uma sucessão de fatos sem vínculo, incapazes de sustentar uma coesão narrativa. Recebemos informações em excesso, mas que não nos preenchem de sentido — são como ecos que reverberam no vazio. “Não há horizonte narrativo para nos elevar além da pura vida. A vida que deve ser mantida ‘saudável’ ou ‘otimizada’ a qualquer custo é uma sobrevivência” (HAN, 2023, p. 66).

Segundo o autor, todo esse barulho das comunicações e das informações serve para encobrir um vazio angustiante que perpassa a sociedade contemporânea. O excesso de selfies, por exemplo, tenta preencher um si-mesmo esvaziado. Volta-se o olhar para fora — para o mundo das celebridades, dos influenciadores — como forma de evitar o confronto com o próprio interior. Valoriza-se o eu exterior porque o mundo interior encontra-se desprovido de sentido.

Para Han, as experiências humanas que atravessam a contemporaneidade e que são mostradas nas mídias sociais se dão no campo do pornográfico: tudo é mostrado, nada é ocultado. A narrativa, ao contrário, exige mistério — um desvelar que se dá aos poucos, mediado pela imaginação. É preciso um olhar simbólico para o mundo.

Vivemos um tempo de desencantamento, buscando fora de nós o encantamento que preencha o vazio interior. Ouvir histórias nos permite uma reconexão com esse mundo simbólico e imagético. A narrativa tem um tempo próprio, que não é o do relógio, nem o da produção e do consumo.

O inconsciente nos apresenta histórias que se assemelham às narrativas fantásticas dos contos de fadas. A psique se comunica por imagens e estrutura suas mensagens de forma narrativa — e não informativa. São narrativas com caráter simbólico e misterioso. A crise da narratividade afeta nossa capacidade de simbolizar e de mergulhar em nosso próprio interior. Como tecer uma narrativa a partir das imagens simbólicas produzidas pelo inconsciente se vivemos imersos no tempo da informação e da comunicação, que nos atordoa? Se vivemos na facticidade? Como nos ater às imagens trazidas pelo inconsciente, se estamos voltados para fora, desatentos de nosso mundo interior e mergulhados em uma avalanche de dados?

 

O valor psíquico da narrativa na constituição do sujeito


Se estamos voltados para o mundo exterior, onde a informação nos afasta de uma compreensão mais profunda de quem somos, talvez seja possível reencontrar esse sentido olhando para dentro — a partir das histórias que nos são narradas ou que acessamos por meio dos livros. Trata-se de um despertar desse potencial humano que, de alguma forma, sempre nos acompanhou ao longo da jornada da humanidade.

Em Espécie fabuladora: um breve estudo sobre a humanidade, Nancy Huston (2010, p. 18) afirma que a narrativa é aquilo que dá sentido à nossa existência:


Apenas nós percebemos a nossa existência terrestre como uma trajetória dotada de sentido (significação e direção). Um arco. Uma curva que vai do nascimento à morte. Uma forma que se desdobra no tempo com um início, peripécias e um fim. Em outros termos: uma narrativa.


Ao longo da história, a narrativa se desenvolveu em nossa espécie como uma técnica de sobrevivência. Foi por meio da capacidade de criar ficções e atribuir sentido à vida que estabelecemos vínculos sociais e construímos o sentimento de pertencimento. Precisamos das histórias para ficcionar o mundo e atribuir-lhe significado — um sentido que me constitua e que também constitua o outro em mim. No prefácio do livro Ficções que Curam de James Hillman (2010), Gustavo Barcellos afirma: “(...) nossa vida psíquica é inteiramente ficcional: contamos histórias e somos as histórias que contamos. Mais que isso, somos a maneira como contamos nossa história.” Dessa forma, podemos afirmar que somos constituídos por um universo ficcional. Damos sentido à vida, às experiências vividas e ao que vivenciamos internamente, a partir de uma construção narrativa mitopoética.

Ao nascermos, somos, pouco a pouco, introduzidos em um sistema narrativo no qual, por meio das histórias, vamos nos conhecendo e tecendo o fio da existência em comunhão com nossos cuidadores e com outros seres humanos. Iniciamos a vida em estado de inconsciência e, progressivamente, por meio das interações, das experiências e das narrativas, vamos nos constituindo e nos apresentando ao mundo. Carregamos uma bagagem narrativa herdada de nossos antepassados — histórias que emergem do inconsciente e que nos são transmitidas por meio da cultura.

Na infância, somos tecidos — e também tecemos nosso ser — por meio das trocas com outros seres humanos. As histórias nos são narradas por mães, pais, avós, irmãos. Apreendemos o mundo por meio da narrativa. No entanto parece que, na modernidade tardia em que vivemos, o valor atribuído às histórias tem se enfraquecido progressivamente, sendo substituído por aparatos tecnológicos.

A humanidade necessita da arte como alimento simbólico para a constituição do psiquismo. Nossa dimensão humana se realiza por meio do processo de simbolização, da recriação do mundo e da atribuição de significados internos à realidade. Em O Homem e seus Símbolos, Carl Gustav Jung (2016, p. 19) afirma que “uma palavra ou uma imagem é simbólica quando implica alguma coisa além de seu significado manifesto e imediato. Esta palavra ou esta imagem tem um aspecto ‘inconsciente’ mais amplo, que nunca é precisamente definido ou inteiramente explicado.” Nosso psiquismo faz uso de termos simbólicos buscando atribuir um sentido ao que ainda não temos condições de compreender integralmente por meio da razão. Por outro lado, não só precisamos de símbolos externos – que nos são dados por meio da arte, da religião e da cultura – como também produzimos símbolos pelo nosso inconsciente através dos sonhos. Para Jung, nossa compreensão da realidade é limitada pelos nossos sentidos. Dessa forma, a simbolização supre, parcialmente, aquilo que a razão sozinha não alcança. Neste sentido, a arte assume uma importância fundamental, pois preenche uma necessidade que não alcançamos apenas pela via da racionalidade.

Narrar histórias é, ao mesmo tempo, uma necessidade e uma habilidade essencialmente humanas. As histórias possibilitam escapar da loucura cotidiana em que, muitas vezes, a vida se transforma. A arte, nesse contexto, funciona como um alimento para a alma, oferecendo formas alternativas de compreender e enfrentar as situações vividas. Por meio das narrativas, somos capazes de enxergar para além de nossas experiências pessoais; vivenciamos, ainda que pela fantasia, outras vidas, deslocamo-nos do nosso lugar e nos relacionamos com outras personas, em uma experiência de alteridade que nos constitui como seres humanos.

As narrativas nos auxiliam a compreender o mundo e a compartilhar das dores e alegrias que compõem a existência humana. Ao contarmos histórias, partilhamos um destino comum.

A necessidade humana de narrar-se e narrar o mundo configura-se como uma condição arquetípica. A narrativa está presente em nossa forma de conhecer o outro e a nós mesmos. É também por meio dela que expressamos os conteúdos simbólicos produzidos pelo inconsciente, os quais emergem à consciência através dos sonhos. Essas imagens simbólicas apresentam-se carregadas de significados, que se traduzem em sequências de acontecimentos passíveis de serem narrados — histórias permeadas por emoções e sensações que, embora nem sempre possam ser plenamente traduzidas em palavras, nos tocam profundamente.

Narrar pode, muitas vezes, representar um caminho de cura, dar um sentido à vida, na medida em que me relaciono com o outro e com ele narro a mim e ao mundo em que estou inserido. O processo terapêutico se desenvolve justamente nesse ato de narrar-se — de reconhecer-se como ser no mundo. Em certos momentos, é necessário reconstruir nossa própria história, assim como o escritor que rasga a folha e recomeça o texto. Precisamos nos reescrever, atendendo ao chamado de nossa alma, do nosso eu mais profundo. Nossa vida psíquica é uma vida repleta de emoção, de drama, de poesia. “Nossa vida na alma é uma vida na imaginação.” (HILLMAN, 2010, p.92)


A Psicologia Analítica e a função terapêutica da narrativa


Carl Gustav Jung (2014, 2016) apresenta a psique humana como produtora de símbolos e narrativas. O inconsciente coletivo, conceito central em sua obra, está imerso em um mundo simbólico que se traduz em arquétipos, os quais estão presentes nas mais antigas histórias já narradas pela humanidade, como os mitos e os contos de fadas. Ele se manifesta por meio de símbolos que ancoram o ser humano em processos internos de significação e transformação.

De acordo com Jung (2014), os arquétipos seriam imagens primordiais presentes na psique e encontradas em todas as épocas e lugares. Na mitologia, são chamados de motivos ou temas — pensamentos elementares primordiais. Ao mergulhar nas camadas mais profundas do inconsciente, Jung foi se deparando com padrões simbólicos que se repetiam entre as pessoas analisadas e, inclusive, em seu próprio processo de análise introspectiva, por meio dos sonhos e da imaginação ativa. Observou, então, a presença de imagens que se repetiam dentro de um determinado padrão simbólico. A esse inconsciente profundo, onde há repetição de padrões simbólicos, Jung deu o nome de inconsciente coletivo, e às imagens primordiais, arquétipos.

Todos nós, seres humanos, compartilhamos esses arquétipos, que estão para o inconsciente coletivo assim como os instintos estão para a parte biológica do ser. Há uma universalidade nos arquétipos — são como dons da natureza. (STEIN, M., 2006, p. 84). A humanidade herda de sua ancestralidade esse saber simbólico e intuitivo. Não somos uma tábula rasa, mas nascemos inconscientes. A mente humana possui, portanto, estruturas universais.


O inconsciente coletivo não se desenvolve individualmente, mas é herdado. Ele consiste de formas preexistentes, arquétipos, que só secundariamente podem tornar-se conscientes, conferindo uma forma definida aos conteúdos da consciência. (JUNG, C. G., 2014, p. 52).


Esse repertório simbólico e arquetípico costuma transbordar à consciência por meio dos sonhos e também da arte. Na clínica, Jung percebeu que seus pacientes apresentavam conteúdos ricos, produzidos pela fantasia ou por imagens oníricas. Utilizou, então, a arte como recurso expressivo, permitindo que esses conteúdos se manifestassem. Assim, manifestando o que se passa em seu íntimo por meio de imagens ou palavras, era possível acessar conteúdos mais profundos, possibilitando uma integração desses conteúdos pela consciência.

Para Jung, o processo de individuação — entendido como o caminho pelo qual o sujeito se torna aquilo que verdadeiramente é — só é possível mediante o diálogo com o inconsciente e com seus conteúdos simbólicos. A arte e a narrativa são, assim, uma ponte entre o consciente e o inconsciente, entre o eu e o self, entre a fragmentação do cotidiano e a totalidade do ser.

De acordo com Nise da Silveira (2023, p.101) “o processo de individuação é descrito em imagens nos contos de fada, mitos, no opus alquímico, nos sonhos, nas diferentes produções do inconsciente.” Essas histórias falam com as profundezas da alma humana. Ouvi-las permite criar uma ligação mais profunda com processos inconscientes, possibilitando que esses processos retornem à consciência, permitindo assim uma conexão entre inconsciente e consciente.

Marie-Louise Von Franz, em Interpretação dos Contos de Fada (2022, p. 19), afirma que "os contos de fada são as expressões mais puras e mais simples dos processos psíquicos do inconsciente coletivo". Em seguida, complementa que "eles espelham mais claramente as estruturas básicas da psique". A autora sustenta que essas narrativas visam descrever um fato psíquico, o qual, por sua complexidade, demanda múltiplas formas simbólicas para ser comunicado e assimilado pela consciência. Apesar da variedade de histórias, essa diversidade não é suficiente para esgotar o tema. Segundo Von Franz, esse fato psíquico profundo corresponde ao conceito de Self, conforme proposto por Jung. O Self representa a totalidade da psique humana e atua como centro regulador do psiquismo. Assim, os contos de fada funcionam como tentativas simbólicas de representar e compreender esse núcleo essencial do ser.

Registros arqueológicos e históricos indicam que histórias semelhantes aos contos de fadas conhecidos atualmente, foram encontradas em diferentes regiões do mundo. Transmitidas de geração em geração, essas narrativas estão presentes no inconsciente coletivo da humanidade. Desde os tempos mais remotos, são utilizadas como forma simbólica de compreender os fenômenos psíquicos vivenciados pelo ser humano. Os mitos, assim como os contos de fada, buscam por meio da ficção elaborar os elementos simbólicos da psique. Eles representam o percurso do ego em direção ao self, abordando o processo de individuação tanto no plano individual quanto coletivo. O mito do herói, presente em diversas culturas e períodos históricos, expressa de forma simbólica o processo de individuação, essa busca pelo Si-mesmo, pela totalidade da psique. Nessas narrativas míticas encontramos figuras arquetípicas que representam elementos encontrados no psiquismo humano. O material simbólico presente nos mitos e contos de fadas são semelhantes aos encontrados nos sonhos e são assim uma via de acesso ao inconsciente. Como bem apontado por Nise da Silveira (2023, p.136), “mitos e contos de fadas dão expressão a processos inconscientes e sua narração provoca a revitalização desses processos, restabelecendo assim conexão entre consciente e inconsciente.”

Para Walter Boechat (2009), o psiquismo humano é regido por duas formas de pensamento: uma linear, relacionada à necessidade de adaptação ao mundo externo e outra circular, relacionada à fantasia e ao sonho. Sendo o pensamento simbólico a junção dessas duas formas de pensamento, uma espécie de pensamento elíptico. Segundo o autor, a junção dessas duas formas de pensamento possibilita o desenvolvimento do processo de individuação. Pois, coloca em ação a função simbólica do inconsciente, possibilitando a eclosão do símbolo.


(...) uma imagem nova surge, modificando toda a condução do processo e trazendo algo novo. Ocorre aí a junção das duas formas de pensamento, produzindo novas soluções para o sonhador, novas formas de adaptação possível, saídas para seu impasse existencial. (BOECHAT, 2009, p.27)


Para o autor resulta daí a importância que o mito possui, sendo vital à existência humana. Havendo assim uma mitopoese da psique onde a linguagem mítica se aproxima da linguagem onírica sendo constituinte de nosso psiquismo.

A construção da psique humana se dá no campo do simbólico. Somos seres que se formam na troca, na escuta e na interação com outros seres humanos. Desde os primeiros momentos de vida, é por meio das histórias — contadas, ouvidas, vividas — que vamos tecendo quem somos. Ao ouvirmos as histórias que os outros nos contam sobre si mesmos, entramos em contato com um universo semelhante ao da literatura: cheio de nuances, emoções e sentidos ocultos. Narrar é um modo de ficcionar a existência e, por meio da ficção, atribuir significado ao mundo e à própria experiência. Somos, essencialmente, seres da narração.

Entretanto, vivemos um tempo marcado por desencontros com essa dimensão simbólica. Cada vez mais voltados para espelhos que não nos refletem, enfeitiçados pelas telas e capturados pelo fluxo incessante de estímulos, afastamo-nos do chamado de nossa alma. A interioridade, espaço fundamental para o autoconhecimento, vai sendo soterrada pelo excesso de imagens e informações que anestesiam a escuta e nos distanciam de quem realmente somos.

Ainda assim, as histórias resistem. Elas falam de um mundo interior que espera ser acessado. O inconsciente, em sua linguagem própria, continua a produzir histórias, especialmente durante o sono, quando vivenciamos experiências oníricas que funcionam como verdadeiras narrativas literárias. A cada noite, somos convidados a percorrer caminhos simbólicos que nos aproximam de nosso eu mais profundo — muitas vezes desconhecido. O inconsciente permanece como um mistério a ser desvendado, um território simbólico que fala sobre aquilo que verdadeiramente somos.

No processo terapêutico, é possível acessar esse universo por meio da escuta atenta e do acolhimento às imagens, emoções e narrativas que emergem. Para Jung, os mitos, os contos de fadas e as histórias tradicionais — transmitidas oralmente por milênios — são mais do que simples relatos: são expressões simbólicas de conteúdos psíquicos profundos. Não se trata apenas de histórias para embalar crianças, mas de saberes ancestrais que nos colocam em contato com o inconsciente coletivo e com a totalidade da psique.

O próprio Jung é exemplo desse processo, de acordo com Hillman (2010, p. 88) depois da crise provocada pelo rompimento com Freud,


Quando não havia nada mais em que se segurar, Jung voltou-se às imagens personificadas da visão interior. Ele entrou em um drama interior, levou a si próprio a uma ficção imaginativa e aí, talvez, começou sua cura - mesmo que tenha sido chamada de seu colapso. Ali, encontrou um lugar para ir que não era mais Viena, figuras com quem se comunicar que não eram mais o círculo psicanalítico de colegas e um mestre que não era mais Freud. Esses encontros com essas figuras pessoais tornaram-se as primeiras personificações de seu destino maduro - que é também como Jung fala das personificações que encontramos quando interiorizamos o "Conhece-te a ti mesmo".


Nesse contexto, o setting terapêutico torna-se um espaço privilegiado para a escuta de histórias que conectam o sujeito ao seu mundo interior para que seja possível iniciar o processo mítico do “Conhece-te a ti mesmo”. Ao narrar-se e ser escutado, o indivíduo pode simbolizar suas vivências, despertando emoções adormecidas e reconfigurando sentidos. A literatura, por meio de poesias, fábulas e contos, funciona como um portal de acesso à imaginação e à vida emocional. É um dispositivo simbólico que nos desperta do torpor causado pela vida automatizada e pelo excesso de estímulos.

Por meio da arte literária, acessamos regiões profundas do ser e encontramos recursos simbólicos para dar forma e nome aos afetos. O verbo, nesse caso, torna-se ferramenta de cura: permite narrar o que antes era apenas sensação confusa ou dor sem nome. Nossa vida psíquica é, em grande medida, estruturada ficcionalmente. E é no encontro entre terapeuta e cliente que uma narrativa compartilhada pode emergir — não como invenção fantasiosa, mas como caminho simbólico de elaboração, de individuação e de aproximação do self.

 

Considerações Finais


Ao refletirmos sobre a importância das narrativas na constituição dos sujeitos, percebemos que vivemos um momento que se aproxima da crítica formulada por Walter Benjamin nas primeiras décadas do século XX e que ressurge com atualidade nas reflexões de Byung-Chul Han. De fato, vivemos uma crise da narrativa — uma crise de escuta, marcada por um excesso de discursos esvaziados de sentido. Ainda assim, as histórias persistem e se mostram cada vez mais necessárias para compreendermos quem somos e como nos posicionamos no mundo.

A literatura, nesse contexto, revela seu potencial transformador ao possibilitar o autoconhecimento, a compreensão do outro e da sociedade. A ficção se mostra como um caminho de (re)encantamento do mundo por meio das histórias.  Jung, (BOECHAT, 2009), analisa criticamente o processo de separação entre o mundo imaginal e o real, o que chamou de desencantamento do mundo. Esse desencantamento do mundo como consequência do paradigma da razão, fortalecido pelo Iluminismo, que rompeu com a visão simbólica da realidade e nos afastou da conexão mítica entre o ser humano e a natureza. Contudo, esse afastamento não anulou a função mitologizadora do psiquismo.

Como afirma Boechat (2009, p. 157):


Mesmo quando pensamos que as sereias são impossíveis, nós precisamos delas; mesmo quando pensamos que o dragão baleia que engoliu Jonas seria incapaz de cuspi-lo vivo depois, esse renascimento a partir do inconsciente é uma necessidade psicológica e mesmo racionalizado pelo iluminismo irá tomar outras formas depois.


A crise da narrativa revela, portanto, um esvaziamento simbólico da experiência humana, afetando diretamente o processo de individuação. Resgatar a narrativa como prática simbólica é restaurar o vínculo com o inconsciente e com as imagens arquetípicas que nos habitam. Ao escutar e contar histórias, reativamos a função simbólica da psique e promovemos um reencontro com o Self.

É fundamental que mitos e contos de fadas sejam compartilhados com as novas gerações. O contato com esse material simbólico oferece às crianças uma via de acesso aos conteúdos inconscientes, permitindo-lhes construir um repertório que favoreça o reconhecimento e a elaboração de suas emoções. Recontar essas histórias é ampliar o horizonte simbólico infantil e contribuir para o desenvolvimento de uma subjetividade mais saudável e imaginativa.

A Psicologia Analítica aponta caminhos para compreendermos a narrativa como ponte entre consciente e inconsciente. Em tempos de hiperconectividade e dispersão, narrar é resistir — um gesto ao mesmo tempo terapêutico e político. Tanto na clínica quanto na educação, é urgente promover espaços de escuta simbólica e reconexão com o imaginário, como forma de fomentar uma cultura mais sensível, integrada e humana.

O mito constitui uma necessidade psíquica essencial. O desencantamento do mundo retira dos fenômenos psíquicos seu sentido mais profundo, rompendo nossa conexão com a natureza psíquica e a identidade. A alma do mundo, esvaziada, torna-se passível de exploração e destruição. A crise da modernidade tardia reflete esse processo de dissociação entre o humano e a natureza, que perdeu seu valor simbólico.

Nesse cenário, a capacidade humana de simbolizar e mitologizar foi redirecionada para valores externos, subordinada à lógica do consumo e da produtividade. O mercado assumiu o lugar de divindade, e as pessoas — assim como a natureza — passaram a ser tratadas como coisas. O resultado é uma sociedade adoecida, reflexo de um mundo desencantado e destrutivo.

A mitopoese contemporânea parece alimentada pela hýbris — a arrogância desmedida — onde o herói, em vez de salvador, torna-se uma figura destrutiva que consome tudo ao seu redor. Talvez o caminho para evitar a autodestruição esteja justamente na reconexão com a natureza, no resgate da anima mundi. Por meio das narrativas primevas, somos convidados a mergulhar profundamente na integração entre o eu e o mundo, numa reconciliação com a Mãe Terra — como nomeiam os povos originários — que possa nos salvar do abismo. Contar histórias torna-se, assim, um ato de resistência, um fio de pertencimento coletivo, uma forma de adiar o fim do mundo (Krenak, 2019) e de tecer um amanhã possível.

 

Referências


BENJAMIN, Walter. O narrador. In: Magia e técnica, arte e política. São Paulo: Brasiliense, 2012.

BOECHAT. Walter. A Mitopoese da Psique: Mito e individuação. 2ªed. Petrópolis: Vozes, 2009.FRANZ, Marie-Louise von. A interpretação dos contos de fadas. São Paulo: Paulus, 2022.HAN, Byung-Chul. A crise da narração. Petrópolis: Vozes, 2023.

HILLMAN, James. Ficções que curam: psicoterapia e imaginação em Freud, Jung e Adler. Campinas, SP: Verus, 2010.

HUSTON, Nancy. A espécie fabuladora. Porto Alegre: LP&M, 2010.JUNG, Carl Gustav. O homem e seus símbolos. Rio de Janeiro: Harper Collins Brasil, 2016.

_______________. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Obra Completa. Volume 9/1. 11ª ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2014.

KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

MURRAY, Stein. O mapa da alma: uma introdução, 5ª ed. São Paulo: Cultrix, 2006.

SILVEIRA, Nise da.


[1] Mestre em Educação pelo ProPEd/UERJ e técnica em assuntos educacionais da UFRJ, atuando no Museu Nacional com Educação e Extensão. É graduada em Pedagogia e possui especializações em Educação Especial, Psicopedagogia e em Psicologia Analítica e o Sujeito Contemporâneo pelo CEJAA. Desenvolve estudos e ações nos campos da infância, educação museal, leitura e diálogo entre ciência e literatura.

 



 
 
 

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