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Kali, um símbolo da totalidade da psique feminina
A. Rita Amaral[1]
RESUMO
Este artigo analisa a deusa Kali a partir da perspectiva da psicologia analítica de Carl Jung, considerando-a um símbolo da totalidade da psique feminina. Ao longo da história da humanidade, a relação do ser humano com a natureza, o divino e a própria psique foi-se transformando. Muitos dos aspectos associados ao princípio feminino, particularmente aqueles ligados à natureza, à ciclicidade, ao corpo, à morte e à destruição, que eram centrais em muitas culturas antigas, passaram a ser marginalizados ou reprimidos na transição para o patriarcado. Da mesma forma, e especialmente no ocidente, muitas representações femininas foram progressivamente sendo divididas entre aspectos luminosos e sombrios, para se ajustarem aos modelos de feminilidade culturalmente aceites. Tal não aconteceu no oriente, onde atributos contraditórios como criação e destruição, terror e proteção, vida e morte surgem representados numa única figura, de forma bem explícita e até assustadora: a deusa Kali. A sua simbologia dual representa uma imagem da totalidade que desafia as divisões simplificadoras impostas pela consciência patriarcal, e traz para a luz aspectos femininos que foram historicamente reprimidos. Kali pode assim ser entendida como uma representação do processo de individuação, quando este envolve a integração dos opostos, neste caso dos aspectos luminosos e sombrios do princípio feminino.
Introdução
Ao longo da evolução cultural da humanidade, as imagens simbólicas que expressam a relação do ser humano com a natureza, o divino e a própria psique, foram sofrendo profundas transformações. Em muitas culturas antigas encontramos uma forte presença de divindades femininas associadas à fertilidade, à terra, aos ciclos da vida e da morte, frequentemente reunidas na imagem da chamada Grande Mãe (NEUMANN, 2021). Estas figuras simbolizavam uma compreensão da realidade baseada na ciclicidade, na transformação e na interdependência entre criação e destruição. Com o desenvolvimento progressivo de culturas patriarcais e de sistemas religiosos centrados em divindades masculinas, observou-se uma transformação significativa no imaginário simbólico coletivo. Muitos dos aspectos associados ao princípio feminino, particularmente aqueles ligados à natureza, à ciclicidade, ao corpo, à morte e à destruição, passaram a ser marginalizados ou reprimidos. Esta mudança cultural refletiu-se numa transformação na forma como a psique humana organiza os seus conteúdos conscientes e inconscientes.
A teoria da psicologia analítica de Carl Jung oferece um enquadramento teórico bastante propício para compreender estes processos simbólicos. Segundo Jung, a psique estrutura-se numa dinâmica entre consciente e inconsciente, sendo que conteúdos reprimidos ou não reconhecidos pela consciência permanecem ativos no inconsciente, muitas vezes manifestando-se através de símbolos, mitos e imagens arquetípicas (JUNG, 2014). Neste contexto, as figuras mitológicas podem ser entendidas como expressões simbólicas de padrões profundos da experiência psíquica humana.
Quando o conteúdo atuante do inconsciente é reconhecido, impõe-se à consciência, assumindo a forma simbólica de uma imagem. Pois, “qualquer coisa anímica pode ser um conteúdo consciente, isto é, pode ser representado, mas somente se for capaz de representação e se possuir a qualidade de uma imagem”. (NEUMANN, 2021, pg. 20).
Entre essas imagens simbólicas, a deusa Kali ocupa um lugar singular. Ao contrário de muitas representações femininas que foram progressivamente sendo divididas entre aspectos luminosos e sombrios, Kali reúne numa única figura atributos aparentemente contraditórios: criação e destruição, proteção e terror, vida e morte. Neste sentido, pode ser compreendida como uma poderosa imagem simbólica da totalidade da psique feminina.
Este artigo propõe explorar a figura de Kali a partir de uma perspectiva junguiana, considerando-a como um símbolo capaz de integrar os opostos fundamentais da experiência psíquica feminina. Para tal, será abordado o processo histórico e cultural de repressão de certos aspectos do feminino, bem como a função do símbolo como mediador entre consciente e inconsciente.
Cisão da dualidade feminino-masculino
O processo evolutivo da formação da consciência na humanidade levou a que as culturas politeístas baseadas num culto à Grande Mãe e à deusa, dessem lugar a uma cultura monoteísta com ênfase num Deus Solar. Este processo levou a que tudo aquilo que é considerado “escuro”, e associado com o mal, fosse reprimido e ficasse no inconsciente (e associado ao feminino), enquanto o que é considerado “luz” ficasse no consciente (e associado ao masculino). Como exmplica Erich Neumann:
Na história da humanidade, a diferenciação do homem e da mulher está entre as mais precoces e impressionantes projeções de opostos, e a humanidade primeva considerava o homem e a mulher como o protótipo dos opostos em geral. Por esta razão, toda oposição aceita facilmente o simbolismo do Masculino e do Feminino, e por conseguinte, a oposição de consciente e inconsciente é experienciada em termos deste símbolo, com o Masculino sendo identificado ao consciente e o Feminino ao inconsciente. (NEUMANN, 2000, pg.9-10)
De um ponto de vista histórico e social este processo foi acontecendo com a cisão de uma dualidade que existia em equilíbrio, quando o pólo masculino se quis manifestar como o mais forte, reprimindo e marginalizando o feminino. Este movimento tornou-se particularmente evidente, numa história mais recente, ao longo da transição do feudalismo para o capitalismo entre os séculos XIV e XVI, naquilo que Silvia Federici descreve como um processo de reorganização social profundamente marcado pela subjugação das mulheres (FEDERICI, 2020). Segundo a autora, a consolidação do sistema capitalista implicou a destruição de formas comunitárias de organização social e a imposição de novos mecanismos de controlo sobre o corpo feminino, o trabalho reprodutivo e a sexualidade das mulheres, processo que teve como um dos seus episódios mais violentos a perseguição às chamadas “bruxas” na Europa. Numa perspectiva junguiana, esta dinâmica reflete um movimento psíquico mais profundo e que já vinha a acontecer há mais de dois mil anos: conteúdos associados ao feminino e ao mundo instintivo foram relegados para o inconsciente, reforçando a cisão entre luz e sombra que caracteriza grande parte da consciência ocidental, conduzindo à generalização de um medo daquilo que é inconsciente, escuro, assustador, daquilo que representa a morte e o submundo. Como coloca Jung:
Isto explica a resistência, o medo mesmo, que muitas vezes as pessoas sentem de aproximar-se de qualquer coisa que diga respeito ao inconsciente. Estes conteúdos sobreviventes não são neutros ou apáticos; ao contrário, estão de tal maneira carregados de energia que às vezes não se limitam a causar mal-estar, chegando a provocar um medo real. E quanto mais reprimidos mais se irradiam através da personalidade inteira, sob a forma de neurose. (JUNG, 2002, p.98).
O desenvolvimento psicológico, na visão de Jung, processa-se através da crescente integração dos opostos, num processo que este designou de individuação, e que corresponde ao caminho através do qual o indivíduo se torna progressivamente consciente da totalidade da sua própria psique (JUNG, 2002). A consciência tende a organizar-se de forma unilateral, privilegiando determinados valores e atitudes enquanto rejeita outros. Contudo, os elementos rejeitados não desaparecem; permanecem ativos no inconsciente, formando polaridades que geram tensão psíquica. Como observa Edward Edinger:
Os opostos constituem a anatomia básica da psique. O fluxo da libido, ou energia psíquica, é gerado pela polarização de opostos, da mesma forma que a electricidade flui entre os pólos negativo e positivo de um circuito eléctrico. [...] Os opostos são realmente o dínamo da psique. Eles são o motor, são o que mantém a psique ativa. (EDINGER 2008, p. 13)
O processo de individuação implica, portanto, um confronto gradual com essas polaridades, conduzindo a uma ampliação da consciência que assim ruma contra a unilateralidade.
O eu só conserva sua independência se não se identificar com um dos opostos, mas conseguir manter o meio-termo entre eles. Isto só é possível se ele permanece consciente dos dois ao mesmo tempo (JUNG 2013, §425, p.169).
Neste contexto, os símbolos desempenham um papel fundamental. Ao emergirem do inconsciente, eles oferecem imagens capazes de mediar entre os opostos, permitindo que conteúdos que não podem ser plenamente compreendidos pela razão sejam gradualmente assimilados pela consciência (JUNG, 2002). Assim, o símbolo torna-se uma ponte entre consciente e inconsciente, abrindo caminho para a integração de dimensões da psique que haviam sido anteriormente reprimidas ou dissociadas.
Entre as inúmeras imagens simbólicas presentes nas tradições religiosas da humanidade, algumas destacam-se pela forma particularmente intensa com que expressam a união de forças opostas. Essas imagens não representam apenas um atributo específico da experiência humana, mas condensam em si dimensões aparentemente contraditórias da vida psíquica. Nesse sentido, podem ser compreendidas como representações simbólicas da totalidade, capazes de refletir a tensão e simultânea complementaridade entre criação e destruição, vida e morte, ordem e caos.
Na tradição hindu, a deusa Kali constitui uma das expressões mais marcantes desse tipo de símbolo. Frequentemente representada através de uma iconografia que à primeira vista pode parecer terrível ou perturbadora, com a pele negra, a língua projetada, pescoço adornado com crânios e dançando sobre o corpo de Shiva, Kali encarna simultaneamente forças de destruição e de renovação (GUPTA, 2003). Longe de representar apenas um princípio negativo ou caótico, a sua imagem reúne dimensões fundamentais da existência que, em muitas tradições culturais, foram progressivamente dissociadas e reprimidas. Esta ausência de figuras que representam o lado sombrio do feminino leva a que as mulheres de hoje tenham alguma dificuldade em validar certos aspectos que vêm surgir como a raiva, a frustração, ou mesmo uma sensação de empoderamento. Jung coloca esta questão da seguinte forma:
Na Antiguidade ocidental e principalmente nas culturas orientais muitas vezes os opostos permanecem unificados na mesma imagem, sem que esse paradoxo perturbe a consciência. [...] Parece que o desenvolvimento crescente do sentimento no homem ocidental forçou aquela decisão que dividia a divindade moral em duas. No Oriente, ao contrário, a atividade predominante intuitivo-intelectual não conferiu direitos de decisão aos valores do sentimento, razão pela qual os deuses puderam conservar imperturbado seu paradoxo moral originário. Assim Kali é representativa para o Oriente e a Virgem Maria, para o Ocidente. A segunda perdeu completamente a sombra. (JUNG, 2014, §189, p. 107-108)
A partir de uma perspectiva junguiana, Kali pode ser compreendida como uma imagem arquetípica poderosa da integração dos opostos. Ao reunir aspectos luminosos e sombrios da experiência, esta deusa torna-se uma representação simbólica da totalidade psíquica feminina, expressando de forma dramática a dinâmica transformadora que caracteriza o processo de individuação.
A iconografia de Kali torna-se particularmente significativa quando considerada à luz da repressão histórica e simbólica do feminino. Em muitas culturas patriarcais, os aspectos do feminino associados ao instinto, à sexualidade, à força destruidora da natureza e à proximidade com os ciclos da vida e da morte foram progressivamente marginalizados ou considerados ameaçadores. Esses elementos passaram a ser frequentemente projetados em imagens negativas ou temidas do feminino, naquilo que Neumann denominou de a “Mãe Terrível” (NEUMANN, 2020).
A realidade simbólica da Mãe Terrível extrai as suas imagens preponderantemente “de dentro”, isto é, o caráter elementar negativo do Feminino se expressa através de imagens fantásticas e quiméricas que não são oriundas do mundo exterior. A razão disso é que esse Feminino Terrível é um símbolo para o inconsciente. O lado escuro do matero terrível assume a forma de monstros, seja no Egito ou na Índia, no México ou na Etrúria, em Bali ou em Roma. […] A Índia foi o lugar em que a humanidade vivenciou a Mãe Terrível da forma mais grandiosa, coo Kali, “as trevas, o tempo que a tudo devora, a Senhora coroada de ossos do reino dos crânios.” (NEUMANN, 2020, pg. 152-153).
Integração dos opostos e individuação
A figura de Kali, com a sua aparência feroz e perturbadora, pode ser compreendida precisamente como a manifestação simbólica dessas dimensões que foram reprimidas pela consciência cultural dominante.
Na perspectiva da psicologia analítica, aquilo que é rejeitado pela consciência tende a formar a sombra. A sombra não corresponde apenas aos aspectos individuais reprimidos, mas também a conteúdos coletivos que uma cultura ou sociedade procura negar (KAST, 2022). Neste sentido, a imagem terrível de Kali pode ser interpretada como uma representação simbólica daquilo que poderíamos chamar de sombra do feminino: as forças instintivas, caóticas, transformadoras e indomáveis que não se ajustam aos modelos de feminilidade culturalmente aceites.
Elementos da sua iconografia reforçam essa dimensão simbólica. A língua projetada, o colar de crânios e a dança sobre o corpo de Shiva evocam imagens de destruição e transgressão que desafiam a ordem estabelecida (KINSLEY, 1986). Contudo, na lógica simbólica do mito, esses atributos não representam apenas violência ou caos; eles expressam também a capacidade de dissolver estruturas rígidas e ultrapassadas, permitindo o surgimento de novas formas de vida e consciência. O aspecto terrível de Kali pode assim ser entendido como a força transformadora que confronta a consciência com aquilo que ela procura evitar ou controlar, podendo também ser compreendido à luz da experiência do numinoso. O numinoso designa uma qualidade particular das imagens arquetípicas que emergem do inconsciente e que se impõem à consciência com uma intensidade emocional e simbólica extraordinária. Inspirando-se no conceito desenvolvido por Rudolf Otto, Jung descreve o numinoso como uma experiência que ultrapassa a compreensão racional e que provoca simultaneamente fascínio e temor, aquilo que Otto denominou mysterium tremendum et fascinans. Como observa Jung, o numinoso é uma qualidade especial de certos conteúdos psíquicos que se apresentam à consciência com uma força avassaladora: “o numinoso pode ser a propriedade de um objecto visível, ou um influxo de uma presença invisível, que produzem uma modificação especial na consciência” (JUNG, 2012, §6, p19.). Neste sentido, o carácter terrível de Kali pode ser compreendido como a expressão de uma energia arquetípica capaz de provocar uma experiência transformadora, abrindo a consciência à profundidade do inconsciente.
Nesta perspectiva, Kali não representa apenas a sombra do feminino, mas também o potencial de integração e transformação que emerge do confronto com essa sombra. Ao incorporar simultaneamente aspectos criadores e destrutivos, maternais e terríveis, a deusa apresenta uma imagem da totalidade que desafia as divisões simplificadoras impostas pela consciência patriarcal. Assim, a sua figura pode ser compreendida como um símbolo de reintegração de dimensões do feminino que foram historicamente reprimidas.
Por esta razão, Kali tornou-se também uma imagem poderosa no contexto contemporâneo de reflexão sobre o empoderamento feminino. A sua iconografia confronta diretamente as expectativas culturais que procuram restringir o feminino a qualidades de docilidade, passividade ou pureza. Ao contrário, Kali encarna uma força autónoma, indomável e transformadora. Simbolicamente, ela recorda que o poder feminino inclui não apenas a capacidade de nutrir e proteger, mas também a de destruir aquilo que impede o crescimento e a liberdade. E esta é uma realidade a que as mulheres de hoje não acessam, por parte destes conteúdos estarem reprimidos por não serem aceites pela sociedade. Ao reconhecer e integrar as dimensões sombrias da experiência feminina, a psique move-se em direção a uma forma mais ampla de totalidade. Assim, a figura de Kali não apenas expõe a sombra cultural associada ao feminino, mas também aponta para a possibilidade de uma reconciliação entre os opostos que estruturam a vida psíquica. Esta integração das forças opostas corresponde à Coniunctio oppositorum, a união simbólica de contrários que conduz à totalidade do Self (EDINGER, 2008). A sua iconografia torna-se, portanto, uma representação arquetípica da psique feminina na sua totalidade.
Quando utilizada no contexto da prática clínica junguiana, com mulheres que reprimiram aspectos do seu feminino como a raiva, a sexualidade, ou o seu poder instintivo, a imagem simbólica de Kali permite esse trabalho de integração da sombra e aceitação de características ou sentimentos que ainda são considerados inaceitáveis.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
EDINGER, Edward F. O mistério da coniunctio: imagem alquímica da individuação. São Paulo: Paulus, 2008.
FEDERICI, Silvia. Calibã e a Bruxa. As. Mulheres, o corpo e a acumulação original. Orfeu Negro, 2020.
JUNG, C. G. Chegando ao inconsciente. In: JUNG, C. G. O homem e seus símbolos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2002, p. 16-99.
JUNG, Carl Gustav. Psicologia e religião. 11.Ed. Petrópolis: Vozes, 2012.
JUNG, Carl Gustav. Estudos alquímicos. 4. Ed. Petrópolis, Vozes, 2013.
JUNG, Carl Gustav. A natureza da psique. 10. Ed. Petrópolis, Vozes, 2013.
JUNG, Carl Gustav. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. 11.Ed Ed. Petrópolis, Vozes, 2014.
GUPTA, Sanjukta. The domestication of a Goddess. In: MCDERMOTT, Rachel Fell; KRIPAL Jeffrey J. Encountering Kali: in the margins, at the center, in the west. University of California Press, Berkeley, 2003.
KAST, Verena. A sombra em nós: a força vital subversiva. Petrópolis, RJ: Vozes, 2022.
KINSLEY, David. Hindu Goddesses: Visions of the Divine Feminine in the Hindu Religious Tradition. University of California Press, Berkeley, 1986.
NEUMANN, Erich. O medo do feminino: e outros ensaios sobre a psicologia feminina. São Paulo: Paulus, 2000.
NEUMANN, Erich. A Grande Mãe. Um estudo Histórico sobre os Arquétipos, os Simbolismos e as Manifestações Femininas do Inconsciente. 2. Ed. São Paulo: Editora Pensamento – Cultrix, 2021.
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[1] Doutora em Biologia, Especialista em Psicologia Analítica
Analista em Formação pelo CEJAA

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