
Metallica no divã:
do vale das trevas às asas que renascem
Ricardo Gessner
Metallica é uma das bandas mais influentes no mundo da música. Formada em 1981, em Los Angeles – EUA, conta com diversos clássicos, como: “Master of puppets”, “One”, “Enter Sandman” e “Fade to Black”. Seu disco de estreia é de 1983, Kill em all, que traz uma sonoridade pesada, rápida e agressiva, servindo como uma das referências iniciais para criação e estabelecimento de um novo gênero: o thrash metal. No ano seguinte, o quarteto lançou outro disco, também clássico, Ride the lightning, que mantêm o mesmo padrão de sonoridade, somado a uma atenção mais técnica nas composições e uma espécie de balada: “Fade to Black”. Essa música é a quarta faixa do álbum. A letra diz o seguinte:
Fade to black
(Metallica)
Life, it seems, will fade away
Drifting further, every day
Getting lost within myself
Nothing matters, no one else
I have lost the will to live
Simply nothing more to give
There is nothing more for me
Need the end to set me free
Things not what they used to be
Missing one inside of me
Deathly loss, this can't be real
I cannot stand this hell I feel
Emptiness is filling me
To the point of agony
Growing darkness, taking dawn
I was me, but now he's gone
No one but me can save myself
But it's too late
Now I can't think
Think why I should even try
Yesterday seems as though it never existed
Death greets me warm
Now I will just say goodbye
Goodbye... [1]
A letra retrata uma situação suicida, como se fosse uma carta de despedida em que o indivíduo apresenta como se sente. De modo geral, uma vida vazia – “emptiness is filling me” – e uma perda da própria individualidade – “missing one inside of me (...) I was me, but now he’s gone”. Em resumo, uma situação de solitude, falta de perspectiva e vontade para seguir em frente, levando à despedida final: “Now I will just say goodbye”.
No entanto, durante as apresentações da banda, James Hetfield, vocalista, guitarrista e um dos compositores da música, normalmente diz algumas palavras sobre a canção, antes de seguir para sua segunda parte. Numa dessas ocasiões, declara: “Vocês conhecem a escuridão. Eu sei que vocês conhecem a escuridão. Eu também conheço a escuridão, e é por isso que estamos aqui”. São palavras que ofertam um enfrentamento da situação descrita na música, faladas por alguém que já atravessou o vale das sombras.
Ao longo de sua trajetória, Hetffield passou por momentos difíceis: o abandono do pai durante sua juventude, a perda da mãe durante a adolescência, o acidente de ônibus com a banda, que acarretou na morte do baixista Cliff Burton, além de sua luta, durante anos, contra o alcoolismo. Contudo, Hetfield seguiu e segue em frente, transformando muitas de suas dores em composições. Alguns anos atrás, inclusive, apresentou episódios de ansiedade durante os shows, desabafando para o público e recebendo por parte de seus colegas de banda o amparo necessário.
O que Hetfield está falando é sobre a necessidade de conhecer, passar e superar a “escuridão”, um símbolo associado ao estado de espírito descrito na música, como desânimo, falta de sentido, sofrimento e dores. Atravessá-la, entretanto, é um processo necessário e até natural. Mais do que isso, é arquetípico. O tema é encontrado em diversas obras, lendas, mitos e histórias, a exemplo de Ulisses, na Odisseia, de Homero: durante seu regresso à Ítaca, após a Guerra de Troia, desce ao submundo do Hades para consultar o adivinho Tirésias e, assim, ter acesso a um saber oculto sobre o futuro e instruções para regressar à sua cidade; Eneias, que também participou da Guerra de Troia, mas é protagonista de outra épica, a Eneida, de Virgílio, também faz a mesma descida para encontrar seu pai, Anquises e, assim, saber qual é o seu destino: a fundação de Roma; Orpheu, personagem da mitologia grega, vai ao Hades em busca de sua amada, Eurídice; Jonas foi engolido por uma baleia, imagem (ser engolido por uma baleia) que também aparece na história de Pinóquio. Essa descida ao mundo das sombras era chamada pelos gregos de katábasis, e era conhecida como um símbolo que representa a necessidade de confrontar a escuridão para alcançar a luz. Sob uma perspectiva da psicologia analítica, representa a situação descrita; uma regressão da energia psíquica ao inconsciente, promovendo na consciência sintomas de melancolia, desânimo, falta de perspectivas.
No entanto, o tema da kathábasis ou do suicídio podem ser ampliados simbolicamente como um autossacrifício, isto é, a superação e renovação de um ego que antes estava preso, fosse uma situação dolorosa, fosse uma falta de perspectiva, ou a ambas. O autossacrifício implica em uma renovação: uma saída do mundo da escuridão e das sombras. Hetfield fala: “Por isso estamos aqui”, ou seja, apresenta a banda e a música como formas de pertencimento que dão ao indivíduo um sentido e uma perspectiva. Esse novo caminho, ao contrário da katábasis, era chamado pelos gregos de anábasis.
“Sentimos um deslizar, e começamos a lutar contra esta tendência e a defender-nos contra a obscura maré do inconsciente e sua sedução para o retrocesso, que se esconde sob o manto de princípios, convicções e ideais consagrados. Se quisermos firmar-nos na altura alcançada, precisamos esforçar-nos continuamente pela conservação de nosso consciente e da posição por ele assumida” (Jung, OC Vol. 09/1, 2013, § 553)
Em linguagem analítica, pertencer significa reencontrar consigo mesmo e descobrir novas capacidades, inclusive criativas, que dão um novo caminho, um novo direcionamento e, por isso, um novo sentido, resgatando o indivíduo daquela situação de sofrimento. Significa sacrificar aquele ego que na música perdeu-se de si mesmo – “Missing one isnide of me”; não há vazio maior do que estar distante de si próprio. Para isso, é na escuridão, explorando e conhecendo-a, que se encontram as luzes capazes de indicar a saída e a transformação necessárias. Roberto Gambini, analista junguiano, fala em coração da agonia:
“Devemos sempre nos perguntar se aquilo que inicialmente se manifesta como dor, ainda que muitas vezes negada e não nomeada, não poderá conter em seu âmago uma matéria misteriosa e transformadora, que no entanto nenhuma psicologia define nem conceitua, como se fosse um território inacessível à elaboração mental e ao entendimento. Portanto, encaro a terapia como um trabalho capaz de tocar um cerne obscuro que nos apavora, e que até poderíamos ignorar, que é o coração da agonia, porque lá, em seu mais íntimo, pulsa e vibra uma força de renascimento e restauração do que foi destruído e caiu nas trevas da sombra” (Gambini, pp. 135-136)
É comum em situações analíticas, principalmente no início do processo, o anlalisando trazer a queixas como “sensação de estagnação, falta de vontade ou força para enfrentamento”. Nesses casos, é importante realizar um trabalho de fortalecimento do ego, visto que aquelas sensações são ocasionadas por uma introjeção da libido. É preciso recuperar o ego, antes perdido, como retrata a letra de “Fade to black”. Isso significa que a força que movimenta a psique (a libido) se encontra em grande parte no inconsciente, deixando a consciência “amortecida”, ocasionando tais sintomas. São situações naturais, visto que a nossa psique, segundo Jung, opera numa dinâmica compensatória. Reequilibrar a libido é o primeiro passo para um “autossacrifício”, pois junto com ela novos conteúdos inconscientes podem vir junto, sendo importante conhecer, elaborar e incorporá-los a “nova vida” que se inicia. O vale das trevas oferece as asas que renascem.
“Tudo o que é jovem um dia envelhece, toda beleza fenece, todo calor esfria, todo brilho se extingue, e toda verdade se torna vazia e chã. Pois todas estas coisas um dia tomaram forma e todas as formas estão sujeitas à ação do tempo; elas envelhecem, adoecem, desintegram-se – caso não se transformem. Podem transformar-se, pois a centelha invisível que um dia as gerou é capaz de criação infinita por sua força eterna. Ninguém deve negar o perigo da descida, mas ela pode ser arriscada. Não se deve arriscá-la, mas é certo que alguém a tentará. Quem tiver de descer, que o faça com os olhos abertos. Pois é um sacrifício que dobra até a vontade dos deuses. A cada descida segue-se uma ascensão. As formas que desaparecem são reformadas, e uma verdade só é válida a longo prazo quando se transforma e torna a trazer seu testemunho através de novas imagens, em novas línguas, como um novo vinho que é acondicionado em odres novos” (Jung, OC Vol. 09/1, 2013, § 553)
O inconsciente, segundo Jung, não é apenas um repositório de traumas, dores, memórias, vontades e situações recalcadas ou reprimidas; o inconsciente também é criativo, seja para um âmbito artístico, seja para a vida, pois, no fundo, fala-se a mesma linguagem. Quando encontramos e deixamos essa criatividade fluir, elaboramos e integramos novos caminhos, a vida ganha um novo sentido e nos reencontramos. “É para isso que estamos aqui”.
Referências bibliográficas:
GAMBINI, Roberto. A voz e o tempo. Cotia, SP: Ateliê Editorial, 2023
JUNG, Carl Gustav. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. In: Obras completas, Volume 09/1, 2013
[1] Tradução livre:
Desaparecer na escuridão
A vida parece se esvanecer / A cada dia, afastando-se mais / Me perdendo dentro de mim mesmo / Nada importa, nem ninguém // Perdi o desejo de viver / Nada mais a oferecer / Não há mais nada para mim / Necessito do fim para me libertar // As coisas não são mais como eram / Sinto falta de alguém em mim / Perdas mortais, isso não pode ser real / Não suporto este inferno dentro de mim // Preenchido pelo vazio / Até o limite da agonia / Escuridão crescente no amanhecer / Eu era eu, mas agora ele se foi // Ninguém mais a não ser eu pode me salvar / Mas é tarde demais / Agora não consigo pensar // Pensar porque eu deveria ao menos tentar // No entanto, parece que ontem nunca existiu / A morte me cumprimenta calorosa / E agora apenas digo adeus // Adeus...

Maravilhosa análise e correlações feitas ao longo do texto! Parabéns ao autor!