
MONSTRO NA ENCRUZILHADA
Ana Cristina Loureiro[1]
Antonio Pajoli[2]
RESUMO: Este artigo, sob a ótica da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung, propõe discutir os aspectos psicológicos da série “Monstro: a história de Ed Gein”, um assassino cujos crimes chocaram os Estados Unidos em meados do século passado. A partir dessa série, disponível na Netflix, buscamos analisar o personagem central, utilizando alguns conceitos de Jung, tais como persona, sombra e o complexo materno. Pensando em encruzilhada enquanto um dilema psíquico, vamos investigar a relação conflituosa entre sombra e persona na figura de Ed Gein.
Palavras-chave: Psicologia Analítica; Persona; Sombra; Complexo materno; Monstro; Ed Gein.
A proposta deste artigo é discutir os aspectos psicológicos de um assassino cujos crimes chocaram os Estados Unidos no século passado, traçando um paralelo com os conceitos da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung.
Nossa discussão terá como base a série “Monstro: a história de Ed Gein”, dirigida por Ryan Murphy, disponível no streaming Netflix. A partir dessa série, buscamos analisar o personagem central e sua personalidade complexa.
Abordaremos, principalmente, alguns conceitos cunhados pelo psiquiatra suíço Carl Gustav Jung, tais como persona, sombra e o complexo materno.
A série, que servirá como mote para a nossa discussão, relata a história de um assassino que chocou os Estados Unidos na década de 1950, e como seus crimes influenciaram filmes de terror como “Psicose”, “O Massacre da Serra elétrica” e “O silêncio dos inocentes “.
Mas quem foi Ed Gein e como podemos analisar sua história pelo olhar da psicologia profunda de Carl Gustav Jung?
Pensando em encruzilhada enquanto um dilema psíquico, vamos investigar a relação conflituosa entre sombra e persona na figura de Ed Gein. Para elucidar o seu perfil psicológico, faz-se necessário apresentar um pouco de sua biografia.
Edward Theodore Gein nasceu em 1906 e cresceu na zona rural de Wisconsin, Estados Unidos, com sua família. Foi o segundo filho de George Phillip Gein e Augusta Wihelmine Gein, sendo Henry George Gein seu irmão mais velho. A família vivia isolada, em uma fazenda na cidade de Plainfield. O pai era um alcoólatra que mal conseguia se manter empregado; a mãe Augusta, extremamente repressora, só permitia que os filhos fossem à escola, evitando contato com estranhos, que pudessem influenciá-los. Uma mãe fervorosamente religiosa, que falava para os filhos sobre morte, assassinato e retribuição divina, além de pregar a imoralidade do mundo, o mal do álcool e repetir constantemente que todas as mulheres (exceto ela) eram naturalmente prostitutas e instrumentos do diabo.
O arquétipo da Mãe é central na narrativa de Ed Gein. E o conceito de arquétipo é relevante na obra de Jung. Segundo ele:
o essencial, psicologicamente falando, é que nos sonhos, nas fantasias e nos estados excepcionais da mente, os temas e símbolos mitológicos mais distantes possam surgir autoctonemente em qualquer época, aparentemente como resultado de influências, tradições e estímulos individuais, mas também – mais frequentemente – sem estes fatores. Essas “imagens primordiais” ou “arquétipos”, como eu os chamei, pertencem ao substrato fundamental da psique inconsciente e não podem ser explicados como aquisições pessoais. Todos juntos formam aquele extrato psíquico ao qual dei o nome de inconsciente coletivo (Jung, 2013, p. 213).
É importante frisar a diferença entre arquétipo e mito. Enquanto os arquétipos são imagens primordiais no inconsciente coletivo, os mitos contêm suas expressões simbólicas.
Os mitos ou imagens arquetípicas aparecem de diferentes formas, em diferentes sociedades e culturas.
Por exemplo, o arquétipo do Salvador está representado simbolicamente no mito de Jesus, assim como a expressão simbólica do arquétipo materno pode ser encontrada na figura de Maria.
Em Os arquétipos e o inconsciente coletivo, Jung fala sobre esse conceito de arquétipo materno:
“Embora a figura da mãe, tal como aparece na psicologia dos povos, seja de certo modo universal, sua imagem muda substancialmente na experiência prática individual. Aqui o que impressiona antes de tudo é o significado aparentemente predominante da mãe pessoal. Essa figura sobressai de tal modo em uma psicologia personalista que esta última, como é sabido, jamais conseguiu ir além da mãe pessoal, seja em suas concepções ou mesmo teoricamente. Para ir diretamente ao assunto, a minha concepção difere da teoria psicanalítica em princípio, pelo fato de que atribuo à mãe pessoal um significado mais limitado. Isto significa que não é apenas da mãe pessoal que provêm todas as influências sobre a psique infantil descritas na literatura, mas é muito mais o arquétipo projetado na mãe que outorga à mesma um caráter mitológico e com isso lhe confere autoridade e até mesmo numinosidade (Jung, 2002, p. 93).
A história de Ed Gein é marcada pela presença de uma mãe controladora, moralista e negativa. A mãe que confessa suas dores de um casamento fracassado, com um marido alcoólatra, do qual esperava dar à luz uma menina. Segundo Jung, “o arquétipo da mãe constitui o fundamento do chamado complexo materno” (Jung, 2008, p. 35):
A mãe é o primeiro ser feminino que o futuro homem encontra em seu caminho e, de forma clamorosa ou discreta, rude ou delicada, consciente ou inconsciente, ela não pode deixar de influenciar a masculinidade do filho; este, por sua vez, torna-se cada vez mais consciente da feminilidade da mãe ou, ao menos em nível inconsciente, responde instintivamente a ela. No filho, portanto, as simples relações de identidade ou de resistência e diferenciação são constantemente entrelaçadas pelos fatores de atração e repulsa erótica (Jung, 2008, p. 36).
Ed Gein cresce sob a presença castradora da mãe, e seu desenvolvimento é marcado pelo constante conflito entre seus instintos e a constelação do complexo materno. O complexo continua presente quando, já na fase adulta, Ed passa a reconstituir o corpo da mãe, costurando partes de cadáveres femininos, numa tentativa de dar vida aquilo que já morreu. A importância da figura materna para Ed Gein permeia toda sua existência. Essa figura da mãe tem contornos negativos e repressores para seu desenvolvimento.
Em seu artigo sobre os ciclos arquetípicos, Jorge Miklos fala sobre a ambiguidade do ciclo matriarcal:
Do ponto de vista funcional, o ciclo matriarcal pode operar de duas maneiras. Em sua função integradora, promove intimidade, acolhimento, cuidado, pertencimento e religação com o feminino profundo e com a terra. É a matriz que favorece a construção do apego seguro, a confiança básica e a capacidade de imaginar. Sem essa base, dificilmente o ego poderá sustentar sua futura individuação. Por outro lado, em sua função repressora, o matriarcal pode aprisionar na indiferenciação, gerando dependência, passividade, regressão e dificuldade de separação. Nesse caso, o excesso de fusão impede o desenvolvimento da autonomia e pode levar à estagnação ou a vínculos simbióticos patológicos (Miklos, 2025, p. 3).
A morte da mãe foi provavelmente o evento traumático que marcou a ruptura da estrutura psíquica de Ed Gein. Foi também, na nossa opinião, o momento que traz sua sombra à tona. A figura de Augusta funcionava como um freio para sustentar sua persona de “bom filho”. Motivado pelo isolamento, pela psicose e por uma obsessão pela mãe, o ego de Ed foi tomado por uma força inconsciente avassaladora: o monstro, a sombra. Ed Gein, então, transforma a tranquila fazenda em uma casa de horrores macabros, que daria origem a um tipo de monstro que mudaria a indústria cinematográfica.
Ed Gein se apresentava socialmente como um rapaz sério, religioso, sedutor, o típico “bom moço” da zona rural, ocupando-se de trabalhos na fazenda e ajudando sua mãe, em casa. Essa figura atraente, misteriosa e aparentemente inofensiva era a imagem com que Ed Gein se mostrava à sociedade, ostentando, portanto, uma persona que “[...] é a máscara ou fachada ostentada publicamente com a intenção de provocar uma impressão favorável a fim de que a sociedade o aceite” (Hall; Nordby, 2021, p. 39). Por trás dessa persona, estava um homem cuja mente era povoada por instintos brutais e perversos.
Na juventude, Ed Gein passava o tempo lendo revistas populares sobre histórias de aventura envolvendo canibais ou atrocidades nazistas, como as da Ilse Koch, “A Cadela de Buchenwald”, que havia sido acusada de selecionar prisioneiros tatuados destinados à morte nos campos de concentração nazistas, para moldar, com suas peles, abajures e outros objetos decorativos. Essa personagem Ilse Koch, retratada em quadrinhos da época, criava seus objetos a partir dos destroços e sobras dos corpos descartados pela dominação nazista.
A sombra devastadora de Ed Gein é construída então, a partir de desejos de mutilação e exumação de cadáveres, para, em seguida, reconstruir corpos ou dar forma a objetos feitos com a pele exumada.
A persona de Ed Gein estava unilateralizada na sua imagem do “bom moço”, enquanto a sombra jazia nos subterrâneos de sua psique, alimentada pelas leituras das revistas, histórias de zumbis e fotos de corpos mutilados.
Ao construir uma “persona boa demais”, o indivíduo está fadado a desprezar o seu lado sombrio e ao construir uma persona que exija muito esforço para ser constituída, certamente, irá gerar reações e desconfortos futuros, pois “naturalmente, quem constrói uma persona boa demais, sofrerá crises de instabilidade” (Jung, 2015, p. 83-84).
Por trás da persona do “bom moço” com a qual se apresentava à sociedade, Ed Gein vivia sob o domínio de sua sombra, e do aspecto destrutivo e negativo do arquétipo da Mãe.
A sombra corresponde a conteúdos inconscientes da personalidade, não reconhecidos pelo ego, que tendem a se manifestar por meio de projeções em outras pessoas.
Em sua obra Aion, Jung chama a atenção para a sombra devastadora:
Muitas vezes é trágico ver como uma pessoa estraga de modo evidente a própria vida e a dos outros, e como é incapaz de perceber até que ponto essa tragédia parte dela e é alimentada progressivamente por ela mesma. Não é a sua consciência que o faz, pois esta lamenta e amaldiçoa o mundo desleal que dela se afasta cada vez mais. Pelo contrário, é um fator inconsciente que trama as ilusões que encobrem o mundo e o próprio sujeito. Na realidade, o objetivo desta trama é um casulo em que o indivíduo acabará por se envolver. Seria lógico admitir que essas projeções, que nunca ou somente com muita dificuldade podem se desfazer, pertencem à esfera da sombra, isto é, ao lado obscuro da própria personalidade (Jung, 2015, p. 21).
A vida de Gein parece ter sido marcada por valores maternos moralistas, o que dificultou a construção de uma persona adulta estável. Essa rigidez defensiva manteve conteúdos inconscientes, como os de natureza sexual e agressiva, isolados na sombra.
As roupas íntimas femininas povoavam o imaginário e interesse erótico de Ed Gein, tanto na forma de atração sexual pelo corpo feminino, como no hábito de travestir-se para a masturbação.
Ed utilizava a pele de corpos exumados de mulheres para construir objetos decorativos, mas também para costurar um dorso e um rosto feminino, traduzindo sua fixação pelo corpo feminino.
A necrofilia e a ginecofilia constituem desejos e práticas sombrias de Ed Gein. A primeira, de natureza patológica e criminal, consiste no desejo sexual por cadáveres. Já a segunda não é considerada patologia, e traduz a atração e desejo sexual pelo feminino. Sob a ótica da Psicologia Analítica, a necrofilia remete ao arquétipo da Morte, abarcando não apenas a figura da morte física e material, mas tudo o que possa estar relacionado à estagnação, apego às memórias e ao passado. Revela, ainda, a negação da transformação e dos processos naturais da vida, da energia psíquica em constante movimento.
Na história de Ed Gein, isso se mostra no seu apego à imagem de mãe morta, ou seja, necrofilia e ginecofilia aparecem combinadas na atração pelo feminino morto, estático, congelado. Trata-se de uma constelação do complexo materno negativo.
Os complexos são estruturas inconscientes de forte conteúdo emocional, decorrentes de experiências vividas, que buscam uma oportunidade para se manifestarem e serem integradas ao longo da vida.
Para Jung, a constelação de um complexo ocorre quando o complexo toma conta do indivíduo de forma inesperada, fora de controle. É como se o ego perdesse sua força e a pessoa agisse sem consciência.
Com a morte da mãe, essa frágil fronteira se rompe, colocando-o diretamente na “encruzilhada psicológica”, onde o inconsciente irrompe com força avassaladora. As imagens que emergem, necrofilia, identificação psicótica com o feminino (ginecofilia), rituais com partes de corpos, podem ser interpretadas, simbolicamente, como formas monstruosas de complexos autônomos que o ego não conseguiu integrar.
Assim, o “monstro” não é uma entidade literal, mas a expressão deformada de conteúdos inconscientes que invadem a consciência quando o sujeito é lançado numa encruzilhada psíquica, sem recursos internos para mediar a transição. Em Gein, essa invasão assume proporções psicóticas, ilustrando como, segundo Jung, quando a fronteira com o inconsciente colapsa, as figuras simbólicas surgem em sua forma mais primitiva, desorganizada e ameaçadora.
A história perturbadora de Ed Gein influenciou o imaginário coletivo simbólico de sua época, tornando-se a base principal no gênero do terror moderno, remodelando não apenas personagens, mas o próprio modo como o medo é construído no cinema.
Os filmes de terror traziam a imagem dos monstros sobrenaturais, criaturas mitológicas, cientistas loucos, vampiros, lobisomens e fantasmas. Mas na história de Ed Gein, o medo passa a ser explorado de outra forma pela indústria cinematográfica, o monstro passa a ser e estar mais próximo de nós do que imaginamos. O monstro passa a ser o vizinho, o filho, o amante. O mal nasce dentro da casa, não em castelos; o horror vem do cotidiano.
Hitchcock inaugurou isso com “Psicose” (1960) no personagem de “Norman Bates”, introduzindo no cinema o assassino psicologicamente complexo, não apenas “o monstro externo”.
Já em 1974, o filme de Tobe Hooper “Leatherface - O Massacre da Serra Elétrica” aborda a temática da degradação corporal com seus monstros usando máscaras feitas de pele humana.
O famoso “Buffalo Bill”, do thriller de suspense “O Silêncio dos Inocentes” (Jonathan Demme, 1991), que confeccionava um “traje de pele” de suas vítimas com a intenção de construir uma nova identidade, marcou toda uma geração.
Os filmes citados mostram o monstro que surge ao cruzar a fronteira onde o humano e o inominável se encontram, onde o inconsciente invade a consciência.
Não é uma novidade a ideia do monstro, histórias antigas já traziam o tema, como o Médico e o Monstro, Frankestein e até mesmo o conto a Bela e a Fera; o importante é ressaltar que aproximamos a ficção da realidade, isto é; os monstros estão entre nós, como citado acima. Não se pode deixar de lado que a história de Ed Gein se passa no período da Segunda Grande Guerra e da dominação nazista. Esse contexto pode estar associado aos filmes de terror que passam a mostrar o “psicopata que mora ao lado”, o assassino que não é mais uma figura marginal, pelo contrário, é alguém que pode estar socialmente integrado, usando sua máscara de humanidade para manipular e matar.
Ed Gein e seus crimes revolucionaram a estética do terror, mudaram a narrativa para um terror psicológico.
Ed Gein, o “açougueiro de Plainfield”, como chegou a ser conhecido, foi diagnosticado com esquizofrenia, declarado mentalmente incapaz e passou o resto dos seus dias num hospital psiquiátrico. Morreu em 1984, vítima de insuficiência respiratória, devido a um câncer de pulmão.
No caso de Ed Gein, a imagem do monstro na encruzilhada pode ser compreendida como uma ruptura da fronteira entre consciente e inconsciente, e um ponto de tensão entre persona e sombra. A vida de Gein foi marcada por valores maternos moralistas, o que dificultou a construção de uma persona adulta estável. Essa rigidez defensiva manteve conteúdos inconscientes, como os de natureza sexual, agressiva, isolados na sombra. O monstro emerge quando essa cisão se torna insustentável, isto é, quando a sombra, não reconhecida pela consciência, irrompe de forma autônoma e desorganizadora. Assim, o monstro na encruzilhada não é apenas uma figura externa, mas a personificação do colapso da mediação simbólica entre persona e sombra, onde o ego já não consegue sustentar a diferença entre aquilo que se apresenta ao mundo e aquilo que foi relegado ao inconsciente.
Referências Bibliográficas
HALL, Calvin S.; NORDBY, Vernon J. Introdução à Psicologia Junguiana. 2. ed. São Paulo: Cultrix, 2021.
JUNG, Carl Gustav. Aion – Estudo sobre o Simbolismo do Si Mesmo. 1. ed. Petrópolis, Rio de Janeiro: Vozes, 2015.
JUNG, Carl Gustav. L’Archetipo della Madre. 1. ed. Torino: Bollati Boringhieri Editore, 1981 – reimpressão 2008.
JUNG, Carl Gustav. Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo. 2. ed. Petrópolis, Rio de Janeiro: Vozes, 1981.
JUNG, Carl Gustav. A Natureza da Psique. 10. ed. Petrópolis, Rio de Janeiro: Vozes, 2013.
MIKLOS, Jorge. Os Ciclos Arquetípicos. Artigo utilizado como material de apoio nas aulas do curso Sob a Sombra do Pai: O Complexo Paterno em uma Cultura Machista, oferecido pelo CEJAA – Centro de Estudos Junguianos Analistas Associados. Contato: jorgemiklos@gmail.com.
[1] Especialista em Psicologia Analítica pelo CEJAA – Centro de Estudos Junguianos Analistas Associados.
[2] Especialista em Psicologia Analítica pelo CEJAA – Centro de Estudos Junguianos Analistas Associados.

Comentários