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    Cejaa
  • 19 de dez. de 2025
  • 17 min de leitura


O teatro de marfim: uma travessia simbólica pelos sonhos e pela imaginação ativa.



Dirciara Barañano Souza[1]



Resumo: Este artigo relata um sonho de uma analisanda, aqui sob o pseudônimo de Maria. O sonho, que envolve a fuga por um mercado africano para um teatro de marfim foi posteriormente ampliado pela analisanda em forma de conto, culminando em uma travessia simbólica rumo ao mar. A partir deste material onírico-narrativo, o trabalho propõe uma reflexão explorando conceitos como inconsciente coletivo, Self, persona, sombra, e imaginação ativa. O percurso simbólico do sonho é compreendido como expressão do processo de individuação, no qual a psique busca integrar seus conteúdos inconscientes por meio de imagens simbólicas carregadas de afeto. A figura do guardião do teatro, a máscara e o mar são analisados como arquétipos que representam passagens entre níveis psíquicos, revelando o potencial transformador dos sonhos quando acolhidos com escuta simbólica e trabalhados com técnicas como a imaginação ativa. O artigo evidencia como a continuidade criativa do sonho, promovida pela analisanda, funcionou como ritual simbólico de elaboração e integração de conteúdos inconscientes à personalidade. Considera-se que os sonhos, especialmente aqueles que se revelam por meio de narrativas simbólicas e imaginação ativa, constituem-se como dispositivos fundamentais de cura e autoconhecimento na psicologia analítica, oferecendo caminhos para a reconstrução subjetiva e a emergência do Self.

Palavras-chave: sonho; imaginação ativa; individuação; símbolo; psicologia analítica.

 

INTRODUÇÃO

 

“Nós também vivemos em nossos sonhos, não vivemos só de dia. Às vezes executamos nossos maiores feitos nos sonhos” (JUNG, 2021a, p. 242”

 

Este artigo apresenta a experienciação[2] de analise simbólica de um sonho relatado em contexto clínico por uma analisanda, aqui nominada pelo pseudônimo de Maria, considerando-se a conduta ética de preservação de identidade. A ideia, não é o aprofundamento da análise, mas sim o relato da experiência, visto este procedimento exigir interconexões entre séries de sonhos conectadas entre si em “contexto fornecido pelo próprio sonhador” (JUNG, 2024, §50)

O sonho se desdobra em torno de um teatro de marfim onde a sonhadora, busca refúgio. Sua riqueza simbólica e sua continuidade, por meio de um conto escrito pela própria analisanda, oferecem um campo fecundo para compreensão dos processos psíquicos implicados na busca por autenticidade e liberdade interior. Sabe-se que a psicologia analítica, fundada por Carl Gustav Jung, confere ao sonho um lugar central na escuta do inconsciente. Para Jung, o sonho é uma expressão simbólica da psique, portador de mensagens que emergem do inconsciente coletivo e do inconsciente pessoal, e que podem iluminar o caminho da individuação (JUNG, 2024).

Dá-se ênfase a essas vias privilegiadas de contato com o inconsciente – sonho e imaginação ativa, explorando conceitos fundamentais da psicologia analítica como inconsciente coletivo, Self, persona, sombra, e o simbolismo como linguagem do inconsciente. Pode-se dizer que o percurso de Maria, do mercado popular africano até o teatro de marfim e a fuga noturna, (des)vela-se numa narrativa de transformação psíquica que ilustra aspectos do processo de individuação.

Caminhando pela teoria da psicologia analítica (JUNG, 1987; 1991; 2021a), serão mobilizadas contribuições contemporâneas sobre o uso da imaginação ativa (HEDIGER, 2024), sobre a dinâmica dos sonhos (JUNG, 2021b; 2024) e a relação entre o Self e o simbolismo do mar, da fuga e do teatro, por exemplo (NEUMANN, 1995; STEIN, 2020). Objetiva-se, enfatizar, como os sonhos, especialmente quando trabalhados clinicamente com escuta simbólica e imaginação ativa, revelam-se dispositivos fundamentais no processo de cura e integração da personalidade, particularmente em contextos nos quais a subjetividade encontra-se fragmentada ou aprisionada em papéis rigidamente definidos pela cultura ou pela história pessoal do sujeito.

 

A CLÍNICA DOS SONHOS NA PSICOLOGIA ANALÍTICA

 

Na psicologia analítica, os sonhos constituem uma das principais vias de acesso ao inconsciente e são compreendidos como expressões simbólicas que articulam conteúdos do inconsciente pessoal e coletivo, ocupando um lugar central no processo analítico. Para Jung (2024), o inconsciente não é apenas um depósito de conteúdos reprimidos, como postula Freud[3], mas uma instância viva, criativa e orientada para a totalidade psíquica - o self. É no sonho que essa instância se manifesta de forma particularmente clara, por meio de imagens simbólicas que apontam para os conflitos e, também, para as possibilidades de transformação do sujeito. A escuta clínica do sonho, portanto, se funda numa atitude simbólica, que busca dialogar com os conteúdos inconscientes em vez de reduzi-los a significados preestabelecidos.

Assim, a psicologia complexa de Jung propõe uma compreensão ampliada do inconsciente, destacando sua autonomia e seu papel compensatório - que busca reequilibrar unilateralidades da consciência; seu papel prospectivo - que antecipa possíveis caminhos de desenvolvimento; e seu papel reativo -, relacionado a eventos recentes da vida consciente (JUNG, 2021b). Dessa forma, Jung (2013) sustenta que o inconsciente pode oferecer à vida consciente elementos que “a completam, a corrigem e até a antecipam” (§441). 

Portanto, torna-se fundamental uma escuta sensível, simbólica do sonho, ou seja, uma atenção aos símbolos/imagens[4] como expressões vivas da alma e não como sinais a serem decodificados de forma linear. O método da amplificação, proposto por Jung, consiste em explorar os símbolos oníricos em sua ressonância cultural, mítica e subjetiva, evitando interpretações mecânicas. Outra advertência é para que o analista não incorra no erro de reduzir os sonhos a interpretações moralizantes ou funcionais, mas os reconheça como narrativas reveladoras do movimento profundo da psique. Seguindo o pensamento junguiano “a tarefa não é somente a tarefa hermenêutica de interpretação de imagens, e sim, a tarefa de permitir-se ser analisado pelo inconsciente” (SHAMDASANI, 2015, p. 4). Como todo sonho é do sonhador, cabe ser compreendido dentro do contexto da vida do sonhador, respeitando sua linguagem metafórica e sua lógica própria.

Complementando e aprofundando esses fundamentos, Marie-Louise von Franz (2024) oferece uma das contribuições mais didáticas e clínicas à interpretação dos sonhos no pensamento junguiano. A autora, enfatiza que a atitude fundamental diante do sonho deve ser de escuta e respeito, e não de análise apressada. Para ela, o sonho é uma mensagem direta do inconsciente ao ego e, portanto, não há nada nos sonhos que seja supérfluo ou sem sentido; tudo o que aparece tem uma razão de ser (VON FRANZ, 2025).

Outro aspecto relevante é o caráter simbólico dos sonhos arquetípicos, que trazem imagens universais comuns à experiência humana, transcendendo a biografia do sonhador. Esses sonhos, que frequentemente surgem em momentos de crise ou transição, manifestam a atuação do inconsciente coletivo[5] e apontam para experiências de contato com o Self (JUNG, 1991; NEUMANN, 1995; VON FRANZ, 2025). Diz Jung (2021b), “[...]. Esses sonhos contêm os chamados motivos mitológicos ou mitologemas, que chamei de arquétipos” (§554). O trabalho com os sonhos exige do analista uma atitude de não saber — um tipo de escuta que acolhe o mistério e a alteridade da imagem onírica,

 

“A compreensão do sonho, de fato, é um trabalho tão difícil, que há muito tempo eu estabeleci como regra, quando alguém me conta um sonho e pede minha opinião, dizer, antes do mais, a mim mesmo: ‘não tenho a mínima ideia do que este sonho quer significar’. Após, esta constatação, posso me entregar ao trabalho de análise propriamente dita do sonho” (JUNG, 2021b, §533).

 

A análise do sonho se torna, então, num espaço de encontro com o inconsciente, em que tanto analista quanto analisando se dispõem a aprender com a psique. O sonho revela conteúdos que podem ser desconcertantes, mas também profundamente transformadores, ao apontar caminhos para a integração de aspectos psíquicos dissociados — o que Jung chama de processo de individuação (STEIN, 2024).

Dessa forma, a clínica dos sonhos na psicologia analítica não se limita à interpretação pontual de imagens oníricas, mas se constitui como um campo simbólico-processual no qual o sujeito pode encontrar, no entrelaçamento entre imagens, afetos e narrativas, uma via de reencontro com sua totalidade psíquica (JUNG, 2024).

 

O SONHO SONHADO E IMAGINADO DE MARIA: ENTRE O MERCADO, O TEATRO E O MAR

 

O sonho de Maria começa com a imagem de uma menina — que ela ao descrever o sonho diz ser ela mesma com mais ou menos uns dez anos de idade — caminhando com um grupo de outras crianças por um mercado popular antigo, semelhante a um mercado de pulgas[6], na África do Sul. O cenário, pulsante de vida e diversidade, contrasta com uma sensação crescente de ameaça, pois o grupo passa a ser perseguido por figuras desconhecidas. Em meio ao caos e à necessidade de fuga, avistam um grande teatro, cuja entrada é guardada por um homem negro, magro e alto que lhes faz sinal para entrar. Ali encontram refúgio.

O teatro antigo, de aparência imponente e quase inteiramente feito de marfim, oferece à menina e aos seus companheiros um abrigo contra a perseguição. Ao adentrarem o espaço, o sonho adquire qualidades quase míticas. No interior do teatro, Maria encontra um baú antigo contendo uma máscara teatral adornada com olhos cintilantes. A partir desse ponto, já no estado de vigília, o sonho dá direção para uma narrativa simbólica, sendo ampliado pela analisanda através da escrita de um conto, o qual discorre sobre a fuga noturna do teatro e a travessia rumo ao mar,

 

A FUGA PARA E DO TEATRO DE MARFIM

 

Numa cidade costeira, onde os raios do sol acariciavam as ruas de paralelepípedo e o som das ondas ecoava pelas vielas estreitas, vivia Maria, uma menina que ansiava por liberdade. Maria passava seus dias ensaiando num antigo teatro local com galerias, corrimãos e muitos detalhes em marfim, onde sonhava em um dia estrelar os palcos do mundo. Em sua mente, ela viajava para terras distantes, onde a grama era verde e os horizontes infinitos.

Certo dia, durante uma pausa nos ensaios, Maria encontrou um antigo baú no porão do teatro. Dentro do baú, descobriu uma máscara teatral esculpida com detalhes meticulosos, adornada com gemas cintilantes. Uma sensação de fascínio e desconforto a envolveu quando seus olhos se encontraram com os olhos da máscara.

Decidida a desvendar o mistério por trás da máscara, Maria mergulhou em sua própria fantasia, explorando os recantos mais profundos de sua mente. Sob a orientação de um sábio mentor[7] que zelava pelo lugar, ela embarcou em uma jornada interior, enfrentando seus medos e confrontando seus complexos mais profundos.

Enquanto isso, nos corredores do teatro, murmúrios de uma fuga planejada se espalhavam. Maria estava determinada a escapar das amarras que a prendiam à sua vida cotidiana e buscar a liberdade que tanto ansiava. Seus colegas de elenco, percebendo sua agitação, decidiram se unir a ela nesta ousada jornada.

Assim, numa noite estrelada, quando as cortinas se fecharam e a cidade adormeceu, Maria e seus companheiros partiram em segredo, deixando para trás o teatro e seus dramas. Sob o manto da escuridão, eles seguiram em direção ao horizonte, em busca da sonhada liberdade.

Enquanto o mar sussurrava seu chamado, Maria despede-se da máscara fascinante que encontrara no baú e abraça a beleza apavorante de sentir-se só. Na vastidão do oceano, ela descobriu a liberdade que tanto ansiava, navegando em direção ao desconhecido com um coração leve e uma mente serena.

E assim, a jornada de Maria tornou-se não apenas uma fuga do passado, mas uma busca por autodescoberta e realização. Nos palcos da vida, ela continuaria a brilhar, sendo muitas Marias e somente Maria protagonista de sua própria história, livre para dançar ao ritmo de seu próprio coração.

 

Como mencionado anteriormente, “o contexto psicológico de conteúdos oníricos consiste no tecido de associações em que a expressão onírica se acha naturalmente incluída” (JUNG, 2024, parag. 48, p. 166). Cada imagem onírica traz em si a expressão de uma realidade psíquica mais profunda, cujo sentido não se esgota em uma única interpretação, mas se abre em camadas de significados e possibilidades. Entre os elementos simbólicos que se anunciaram nessa experiência, sinaliza-se algumas ampliações, aqui trazidas resumidamente para atender o espaço-tempo da escrita deste artigo.

O mercado africano emerge como espaço de ancestralidade, diversidade e troca. Como cenário inicial do sonho, evoca as raízes culturais que formam a base psíquica da sonhadora e o inconsciente coletivo - lugar onde a multiplicidade de experiências humanas se encontra. Trata-se de um espaço vital, mas também caótico, onde a sensação de perseguição anuncia a presença de conteúdos sombrios[8] ou de complexos[9] que ameaçam a integridade do ego (JUNG, 1981).

A figura do homem negro à porta do teatro pode ser compreendida como uma manifestação do arquétipo do velho sábio ou do Self, que atua como guardião de transições psíquicas importantes (JUNG, 2022a). Ele aparece como guia, salvador e guardião do limiar entre o mundo externo em convulsão e o espaço interno protegido, representado pelo teatro. Neumann (1995) aponta que tais figuras-limite sinalizam a abertura de portais de transformação psíquica e são essenciais em processos iniciáticos. Também, a porta como limite entre dois mundos – consciente e inconsciente remete ao arquétipo de Exu[10], o senhor das portas, das encruzilhadas, das decisões, dos caminhos. Na figura do homem negro, exu se apresenta como comunicador de mundos e, na simbologia do mercado,

 

“Exu é movimento, ação, é barulho de rua [grifo meu], é ambiguidade e graça. É astúcia do mais fraco, é roubar ou recompensar quem faz por merecer seu desprezo ou sua consideração. Os mercados são de Exu, lugares imemoriais de troca de mercadorias, palavras, saberes, informações. Exu adora intrigas, se diverte em jogar com seres humanos, sempre tão binários e literais em seu jeito de ver o mundo preto no branco. Geralmente, sair de um enrascada criada por Exu exige da vítima negociação, jogo de cintura e sagacidade para enxergar caminhos inesperados [grifo meu]”(FACINA, 2025, p.7-8).

 

O teatro de marfim configura-se como espaço simbólico de elaboração e representação interior. Enquanto teatro, pela ideia do palco, simboliza a dimensão psíquica onde os papéis — ou personas — são encenados. O marfim, material belo e resistente, pode indicar rigidez ou pureza arquetípica. E, nesse sentido, Chevalier e Gheerbrant (1990), reforçam no marfim o “[...] símbolo de pureza. [...] simbolismo do poder: a dureza do marfim faz dele praticamente um material inquebrável e incorruptível” (p. 593).

A entrada no teatro é o ingresso em uma realidade simbólica, mas também uma travessia rumo ao si-mesmo, sendo este, o si-mesmo ou self “um conceito limite que exprime a totalidade da psique humana. [...] O si-mesmo é, portanto, o arquétipo da ordem e do significado e representa a meta do processo de individuação” (JUNG, 2022b, §44, §46).

A máscara adornada com olhos brilhantes - ou gemas como aparece no conto, descoberta no interior de um baú, surge como imagem central do processo de confrontação da persona. Segundo Jung (1991), a persona é a adaptação funcional do ego às expectativas sociais, e seu excesso pode levar à alienação do verdadeiro self. As gemas incrustadas sugerem que a máscara possui um valor estético e sedutor, mas ao mesmo tempo exerce controle. O desconforto sentido por Maria ao olhá-la indica um movimento de reidentificação com outros papeis possíveis de serem atuados.

Em estado de vigília, a analisanda dirigida pelo sonho, permite-se prolongá-lo num exercício de continuar sonhando acordada, permitindo-se disponível ao diálogo com o inconsciente. Nesse sentido, busca-se apoio nas palavras de Jung (2025),

 

“As pessoas muitas vezes sonham de maneira bastante fragmentada, ou o sonho se interrompe em algum lugar - então peço ao sonhador que o imagine mais adiante [grifo meu]. Eu meio que peço a continuação. Em princípio, isso nada mais é do que a técnica usual de criar o contexto do sonho. Eu obtenho toda a textura na qual o sonho está inserido. Como aparece ao sonhador. Existem algumas ideias simples: acreditamos que a água é igual para todos, mas não é bem assim. Se perguntássemos para doze pessoas o que elas associam à água, ficaríamos surpresos com o que elas responderiam. Assim, se, em vez de perguntar por todo o tecido do sonho, eu perguntasse como seria a continuidade do sonho, obteria como resposta um material correlacionado exatamente com o significado do sonho” (p.3).

 

Imaginando mais adiante do sonho, a fuga do teatro e a travessia rumo ao mar podem ser compreendidas como uma metáfora do rito de passagem psíquico. A fuga não apenas física, mas simbólica - uma retirada das estruturas egóicas cristalizadas em busca de uma experiência mais autêntica do self. Ainda, sem querer reduzir as possibilidades simbólicas, o mar como símbolo do inconsciente coletivo e do feminino primordial, representa o retorno às origens e a abertura à dimensão arquetípica da psique (JUNG, 1987). Dessa forma, “o mar traz em si a dinâmica da vida. Tudo sai do mar e tudo retorna a ele, lugar dos nascimentos, das transformações e dos renascimentos. [...] é ao mesmo tempo imagem da vida e da morte” (CHEVALIER; GHEERBRANT, 1990, p. 592).

O deixar para trás a máscara durante a travessia final configura-se como ato de libertação e iniciação. Neste momento, Maria se aproxima de sua essência — não mais presa a papéis sociais fixos, mas entregue à fluidez do desconhecido. Essa imagem final aproxima-se da noção de integração simbólica proposta por Jung, na qual o ego se orienta ao redor do Self e não mais da persona.

 

O SELF E O PROCESSO DE INDIVIDUAÇÃO

 

O sonho de Maria oferece uma narrativa simbólica que pode ser compreendida como expressão do processo de individuação — conceito central da psicologia analítica. Segundo Jung (1991), a individuação é o processo pelo qual a personalidade se torna um todo integrado, em que ego e inconsciente entram em diálogo contínuo. Nesse caminho, o Self/si-mesmo (JUNG, 2022b) se manifesta como o centro regulador e totalizador da psique, não sendo uma instância moral ou ideal, mas um arquétipo da totalidade.

Ao longo do sonho, diversos elementos apontam para o chamado do Self. A travessia do mercado ao teatro, o encontro com o guardião/zelador, a descoberta da máscara e, por fim, a fuga em direção ao mar revelam etapas de um itinerário interior que conduz Maria a um reencontro com aspectos esquecidos ou não integrados de si mesma. Neumann (1995) interpreta essas imagens como marcos de uma jornada mítica que conduz à transformação do ego e à reconexão com o centro psíquico.

O Self, como estrutura arquetípica, não se impõe de forma racional. Ele se revela por meio de imagens, sonhos, impulsos criativos, figuras simbólicas e experiências de sentido. No sonho de Maria, o Self manifesta-se inicialmente como figura externa — o homem à porta — e depois como impulso interno de transcendência — a remoção da máscara e a abertura ao mar. O Self é, portanto, tanto destino quanto possibilidade: ele orienta, mas também exige da consciência entrega, escuta e coragem para a travessia (STEIN, 2020).

O processo de individuação não anula a persona ou os papéis sociais, mas convida à integração equilibrada entre as diversas instâncias da psique. O sonho sinaliza que Maria está iniciando essa travessia, abandonando identificações rígidas e abrindo-se ao novo. Esse movimento é, para Jung (1987), profundamente terapêutico, pois a cura psíquica não reside na adaptação social ou na eliminação do sofrimento, mas na capacidade de dar sentido à experiência e reconhecer sua dimensão simbólica.

Ao tomar o sonho como guia e permitir que ele se desdobre em criação - através do conto, a analisanda participa ativamente do processo de individuação. Ela não apenas recorda o sonho, mas o vivencia, o amplia, o incorpora em sua história. Essa atitude, que Jung denominava colaboração com o inconsciente, é o que possibilita que o Self emerja como eixo estruturante da psique e que a cura se dê não por imposição, mas por transformação simbólica.

 

PROLONGAMENTO DO SONHO E A IMAGINAÇÃO ATIVA

 

Uma das contribuições mais originais de Jung para a psicologia profunda foi o desenvolvimento da técnica da imaginação ativa (JUNG, 2021a). Trata-se de um método de diálogo consciente com as imagens inconscientes, que permite à psique expressar-se de forma simbólica, sem que o ego busque controle ou censura imediata. A imaginação ativa promove o encontro entre consciência e inconsciente, permitindo a continuação de sonhos, a elaboração de símbolos, a escuta de personagens interiores ou mesmo a criação

No caso aqui apresentado, Maria deu continuidade ao seu sonho espontaneamente, elaborando uma narrativa escrita que amplia e aprofunda os temas oníricos. Essa atitude exemplifica um exercício de imaginação ativa, na medida em que revela não apenas uma recordação sonho, mas um engajamento com o símbolo — com o drama interno que o sonho apresenta. Ao transformar o conteúdo onírico em conto, a analisanda não apenas prolonga o sonho, mas atualiza seu conteúdo, estabelecendo um vínculo ativo com ele (JUNG, 2025). Como não mencionar o livro de Markus Hediger (2024), que versa sobre o encontro com a alma na imaginação ativa, por meio de contos literários e relatos pessoais e, expõem o leitor à força criativa, à poiesis do inconsciente acessada por essa prática da imaginação?

A escrita do conto pode ser compreendida aqui como ritual simbólico de transição e integração. Ao trazer à consciência as imagens do teatro, da fuga, do mar, da remoção da máscara, entre outros, acaba por dialogar com esses símbolos e personagens como experiências psíquicas vividas. A imaginação ativa não busca resolver o conflito de imediato, mas propõe um campo relacional entre o ego e as imagens, em que a transformação ocorre pelo reconhecimento do valor simbólico das experiências (HEDIGER, 2024). No caso de Maria, o gesto de narrar simbolicamente a continuação do sonho revelou-se terapêutico e expressivo de um movimento interno de apropriação da própria história psíquica, cujos desdobramentos não se fazem objeto deste estudo.

Esse tipo de elaboração é indicativo de que o símbolo não foi apenas interpretado, mas integrado. A transformação simbólica, tão cara à psicologia analítica, não ocorre por imposição racional, mas por meio de vivências subjetivas carregadas de afeto e significado. Por isso, o uso da imaginação ativa como prolongamento do sonho é, ao mesmo tempo, uma ferramenta de análise e um gesto criativo de individuação.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

O sonho de Maria, com sua estrutura simbólica/imagética, revela-se uma expressão profunda do inconsciente e um catalisador do processo de individuação. Ao atravessar cenários arquetípicos como o mercado, o teatro e o mar, a sonhadora é conduzida a um reencontro com aspectos fundamentais de sua psique, abrindo caminho para uma vivência mais autêntica de si mesma.

A análise do sonho, somada à sua continuidade por meio da escrita simbólica — uma forma espontânea de imaginação ativa —, demonstra a potência dos sonhos como dispositivos de cura e transformação. Eles oferecem imagens que não apenas expressam conflitos internos, mas também apontam direções e possibilidades de integração psíquica.

No contexto da clínica junguiana, a escuta dos sonhos e a prática da imaginação ativa requer, atenção simbólica, abertura à linguagem da alma e reconhecimento de que as imagens não buscam ser resolvidas, mas compreendidas e incorporadas ao processo de vida (HEDIGER, 2024). Quando o sujeito fica com essas imagens, envolve-se com elas, como fez Maria, os conteúdos simbólicos começam a chegar no seu tempo à consciência e passam a ser vividos, transformando-se em ação psíquica e em narrativa significativa.

A experienciação relatada neste artigo, converte-se em convite à escuta interior e à criação daquilo que dá sentido à vida, ressaltando-se que “podemos adquirir todo conhecimento que nosso inconsciente oferece, mas se não o concretizarmos na vida desperta, esse conhecimento não vale nada”, não cura (HEDIGER, 2024, p.85). Ao abraçar a beleza e o mistério do sonho e da imaginação ativa, o trabalho analítico se reconcilia com sua vocação simbólica e transformadora, permitindo que, como Maria, cada sujeito encontre a coragem de remover sua própria máscara e navegar rumo à autenticidade de seu ser.

 

REFERÊNCIAS

 

FACINA, Adriana. Jung na encruzilhada. Disponível em:< https://www.cejaa.com/_files/ugd/e84846_c17c7a22832043d3a657791a33c031ad.pdf>. Acesso em 30 de abril de 2025.

JUNG, Carl Gustav. A psicologia e a religião. Petrópolis: Vozes, 1987.

JUNG, Carl Gustav. Tipos psicológicos. Petrópolis: Vozes, 1991.

JUNG, C. G. Sonhos. In: Obras Completas, v. XVI/2. Petrópolis: Vozes, 2013.

JUNG, Carl Gustav. O Livro Vermelho (Liber Novus). Petrópolis: Vozes, 2021a.

JUNG, Carl Gustav. A natureza dos sonhos. In: ______. A dinâmica do inconsciente. Petrópolis: Vozes, 2021b.

JUNG, Carl Gustav. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. OC/Vol. IX/1. 2 ed. Petrópolis, RJ, 2022a.

JUNG, Carl Gustav. Aion: estudo do simbolismo do si-mesmo. OC/Vol. IX/2. 10 ed. Petrópolis, RJ, 2022b.

JUNG, Carl Gustav. Sonhos. 2ª reimpressão. Petrópolis, Vozes: 2024

JUNG, Carl Gustav. Considerações de Jung sobre a imaginação ativa no Seminário sobre Yoga e Meditação. Disponível em:< www.lampejo.com>. Acessado em 20 mai 2025.

NEUMANN, Erich. A origem e a história da consciência. São Paulo: Cultrix, 1995.

SHANDASANI, Sonu. A prática da imagem de Jung. Journal Of Sandplay Therapy, v. 24, n.1, 2015.p 7-22. Disponível em: < https://www.sandplay.org/journal/abstracts/volume-24-number-1/shamdasani-sonu-jungs-practice-of-the-image/>. Acesso em: 01 mai 2025.

SOUZA, Dirciara Barañano. Imaginação ativa como espaço sagrado. Disponível em:https://www.cejaa.com/_files/ugd/e55d66_584c5e0b33b14cc9a158560975cda8e9.pdf>. Acesso em 03 de abr. 2024.

STEIN, Murray. Jung e o caminho da individuação: uma introdução concisa. São Paulo: Cultrix, 2020.

VON FRANZ, Marie-Louise. Os caminhos dos sonhos. Trad. Roberto Gambini. São Paulo: Cultrix, 1988. Disponível em: < https://clinicapsique.com/wp-content/textos/Marie-Louise%20Von%20Franz%20-%20O%20Caminho%20dos%20Sonhos.pdf>. Acesso em 30 abr. 2025.


[1] Analista em Formação pelo Centro de Estudos Analistas Associados (CEJAA); Especialista em Psicologia Analítica (CEJAA); Mestre e Doutora em Enfermagem, com ênfase em Psicologia Social pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Orientado pela Doutora em Antropologia e Professora no Museu Nacional-UFRJ. Analista Junnguiana – CEJAA, Adriana Facina.

[2] Machado, Carmen Lucia Bezerra; Albuquerque, Paulo Peixoto de (Org.). Escrituras: tempos de ensinagem – formação de professores e professoras - ERE 2021 [recurso eletrônico]. Porto Alegre: UFRGS, 2022. 228 p. ISBN 978-65-5973-139-8.

[3] FREUD, Sigmund. A interpretação dos sonhos. Vol. I. Porto Alegre, RS: L&PM, 2023

[4] Símbolos como imagens significativas que transportam conteúdos psíquicos inconscientes até a consciência, unindo os lados consciente e inconsciente da psique. Psique subjetiva e objetiva, respectivamente (JUNG, 2021b).

[5] “O Inconsciente coletivo é uma parte da psique que pode distinguir-se de um inconsciente pessoal pelo fato de que não deve sua existência à experiência pessoal, não sendo, portanto, uma aquisição pessoal. [...] consiste de formas preexistentes, arquétipos, que só secundariamente podem tornar-se conscientes, conferindo uma forma definida aos conteúdos da consciência” (JUNG, 2022a, §88, §90).

[6] Também conhecido como feira de pulgas ou mercado de rua, é um espaço onde se vendem e compram produtos usados, incluindo roupas, móveis, antiguidades, livros, brinquedos, entre outros. Estes mercados são geralmente informais e itinerantes, ou seja, podem se instalar em diferentes locais e em diferentes dias da semana. Originalmente chamado “Marché aux puces”, o Mercado de Pulgas surgiu nos subúrbios de Paris, na França (Laboratório de Educação. Disponível em:< https://labedu.org.br/voce-ja-ouviu-falar-no-mercado-de-pulgas/>. Acesso em 28 abr. 2025.

[7] Segundo Maria, o sábio mentor presente no conto, encontra-se associado a figura do guardião que zelava pela entrada da porta do teatro de marfim em seu sonho.

[8] Integrando o conjunto de arquétipos do inconsciente coletivo, “[...] a sombra constitui um problema de ordem moral que desafia a personalidade do eu como um todo, pois ninguém é capaz de tomar consciência desta realidade sem dispender energias morais. Mas nessa tomada de consciência, da sombra, trata-se de reconhecer os aspectos obscuros da personalidade, tais como existem na realidade (JUNG, C.G., 2022, § 14).

[9] Os complexos são núcleos autônomos de conteúdo psíquico carregados de afeto, que se formam no inconsciente pessoal a partir de experiências emocionais marcantes. Eles atuam de forma independente do ego e podem influenciar pensamentos, sentimentos e comportamentos, muitas vezes sem que o indivíduo tenha consciência disso (JUNG, 2021b).

[10] ZACHARIAS, J.J DE M; SILVA, F.A. Orí Àse: a dimensão arquetípica dos orixás. Petrópolis, Rj: Vozes; São Paulo, SP: Sattva, 2025.

 

 

 




 
 
 

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Paulo Nunes
Paulo Nunes
20 de dez. de 2025
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Lindo artigo, parabéns Dirciara. A proposta do artigo, articula de modo consistente o material clínico-onírico com os fundamentos da Psicologia Analítica. A escolha de partir de um sonho específico, posteriormente elaborado pela analisanda em forma de conto, revela uma abordagem clínica que valoriza a continuidade simbólica da experiência onírica e sua potência transformadora. Tal movimento amplia o sonho para além de sua ocorrência pontual, situando-o como processo vivo da psique em diálogo com a consciência.

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