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9 de out.
17 min de leitura


Quando o dragão atravessa o portal:

 símbolo, fogo psíquico e transformação na clínica arteterapêutica junguiana

 


Cristiane Gerolis de Moraes[1]


Resumo: Este artigo propõe uma reflexão teórico-clínica sobre a função transformadora do símbolo na clínica arteterapêutica orientada pela Psicologia Analítica. A partir de um encontro clínico com uma criança de nove anos, cuja agressividade intensa emergia em um contexto de separação parental e desorganização afetiva, discute-se o surgimento da imagem de um dragão como possibilidade de simbolização da raiva. O texto articula os conceitos de energia psíquica, símbolo, prima materia, recipiente alquímico e transformação, dialogando com C. G. Jung, Marie-Louise von Franz e Nise da Silveira. A imagem do dragão é compreendida como figura recorrente na iconografia alquímica, associada à matéria obscura, ao fogo e à potência de transmutação. No processo clínico descrito, o dragão não é eliminado, mas acolhido, ampliado e nomeado, permitindo que a energia agressiva encontre forma, contorno e possibilidade de elaboração. Defende-se que o processo terapêutico pode funcionar como um recipiente simbólico capaz de sustentar o fogo psíquico até que ele deixe de ser apenas destrutivo e possa participar de um processo de transformação.


Palavras-chave: Arteterapia; Alquimia; Símbolo; Dragão; Energia psíquica.

 

INTRODUÇÃO

 

O que acontece quando a clínica não busca extinguir o fogo psíquico, mas oferecer um recipiente capaz de acolhê-lo e transformá-lo?

 

Em contextos de sofrimento psíquico, especialmente quando afetos intensos se manifestam por meio da agressividade, somos frequentemente convocados a pensar em estratégias de contenção, controle ou supressão dos comportamentos

considerados inadequados. No entanto, a partir de uma perspectiva simbólica orientada pela Psicologia Analítica, talvez seja possível formular outra pergunta: o que essas intensidades buscam expressar? O que acontece quando o fogo encontra um espaço suficientemente seguro para existir?

 

Na clínica arteterapêutica orientada pela Psicologia Analítica, as imagens não são compreendidas apenas como produtos expressivos ou representações de conteúdos internos. Elas são acontecimentos psíquicos que emergem no interior de um campo relacional suficientemente seguro, podendo assumir uma função organizadora, mediadora e transformadora da experiência emocional, favorecendo deslocamentos da energia psíquica e ampliando a capacidade de simbolização.

 

Jung compreendia o símbolo como a melhor expressão possível de algo ainda desconhecido pela consciência. O termo símbolo, etimologicamente, remete àquilo que une uma realidade visível a uma dimensão invisível. Diferentemente do signo, que remete a um significado previamente estabelecido, o símbolo permanece vivo, carregando uma tensão entre aquilo que já pode ser conhecido e aquilo que ainda busca nascer. Sua potência não reside em ser rapidamente interpretado, mas em ser acompanhada do em seus desdobramentos, permitindo que realize seu próprio trabalho de transformação.

 

Segundo Von Franz (2022, p. 45), a alquimia constitui uma tentativa empírica de compreender os fenômenos da natureza, articulando observação material e atitude simbólica diante do mistério da vida. Retomada por Jung como metáfora privilegiada dos processos de transformação da psique, ela oferece imagens fecundas para pensar o trabalho clínico.

 

Nem todo fogo transforma. Em excesso, destrói; insuficiente, interrompe o processo. A transformação exige continência, tempo e uma temperatura adequada. Assim, a clínica arteterapêutica pode ser compreendida como um trabalho delicado de regulação: oferecer um espaço suficientemente seguro para que as imagens emerjam, um continente capaz de acolhê-las e uma presença que sustente o calor necessário para que algo da experiência encontre forma, sentido e possibilidade de transmutação.

Nesse contexto, a Arteterapia constitui uma modalidade clínica que utiliza a linguagem simbólica e os materiais expressivos como mediadores do processo terapêutico. Esses recursos não ocupam um lugar meramente ilustrativo ou acessório; ao contrário, tornam-se parceiros da experiência analítica, favorecendo a expressão, a elaboração e a transformação de conteúdos que, muitas vezes, ainda não encontraram representação pela palavra.

 

Sob uma perspectiva alquímica, pode-se pensar que os recursos artísticos participam da própria operação transformadora. Ao mesmo tempo em que acolhem e contêm a intensidade dos afetos, favorecem o aquecimento necessário para que a matéria psíquica permaneça em processo, sem cristalizar-se nem transbordar. A Arteterapia não busca apagar o fogo psíquico, mas colaborar para que ele encontre um recipiente, um ritmo e uma medida capazes de sustentar a travessia.

 

É a partir dessa compreensão que este ensaio se desenvolve, tomando um encontro clínico, como eixo para refletir sobre a função transformadora do símbolo. A emergência de um dragão, de seu fogo e da travessia por um portal   testemunha do trabalho símbolo de transformação da energia psíquica.

 

Trata-se de um ensaio teórico-clínico, de abordagem qualitativa e caráter descritivo, construído a partir de um relato de experiência decorrente do acompanhamento clínico de uma criança. O relato baseia-se em observações realizadas ao longo dos atendimentos, nos registros da terapeuta e nas produções expressivas e simbólicas elaboradas durante o processo arteterapêutico. A análise da experiência foi desenvolvida à luz da Psicologia Analítica, buscando compreender os sentidos simbólicos presentes nas imagens, nas narrativas e nas manifestações da criança. As reflexões decorrentes desse percurso foram adensadas pelas perspectivas oferecidas pelas referências teóricas adotadas. O relato foi elaborado mediante consentimento dos responsáveis para utilização da experiência clínica neste artigo, com preservação da identidade da criança e de informações que pudessem permitir sua identificação.

A relevância deste estudo reside na possibilidade de contribuir para a compreensão da função transformadora das imagens na clínica arteterapêutica orientada pela Psicologia Analítica, especialmente em contextos nos quais afetos intensos tendem a dificultar a possibilidade da elaboração consciente. Ao aproximar a experiência clínica do simbolismo alquímico, busca-se ampliar a reflexão acerca do lugar da agressividade no processo terapêutico, compreendendo-a não apenas como sintoma a ser controlado, mas como expressão de uma energia psíquica que demanda continência, elaboração e transformação.

 

Desse modo, o objetivo deste ensaio é refletir sobre a função transformadora do símbolo na clínica da Arteterapia orientada pela psicologia Analítica, articulando seus referenciais teóricos à experiência de um encontro clínico.  

 

Como objetivos específicos, busca-se investigar o setting clínico como recipiente simbólico capaz de sustentar processos de transformação psíquica; analisar como a imagem do dragão passou a mediar a simbolização da agressividade e o redirecionamento da energia psíquica; e descrever o percurso clínico que favoreceu a emergência da imagem simbólica do dragão.

 

Para tanto, o artigo está organizado em quatro seções, além desta introdução: “Quando o dragão atravessa o portal: um encontro clínico”, que apresenta o percurso do caso; “O calor alquímico do encontro: da atuação à simbolização”, dedicada à reflexão sobre o encontro terapêutico e o processo de transformação; “O fogo sem recipiente: quando a energia psíquica transborda”, que discute a agressividade e o excesso de energia psíquica à luz da Psicologia Analítica; e, por fim, as considerações finais, que retomam os principais eixos desenvolvidos ao longo do ensaio.

 

Quando o dragão atravessa o portal: um encontro clínico

 

As reflexões apresentadas até aqui ganharam contornos mais nítidos a partir de um encontro clínico que me levou a interrogar, de maneira ainda mais profunda, sobre a função transformadora do símbolo no processo terapêutico. Não se trata de ilustrar conceitos previamente estabelecidos, mas de acompanhar o modo como determinadas imagens emergem espontaneamente e parecem participar ativamente da reorganização da experiência psíquica.

 

Foi a partir desse encontro que a pergunta que orienta este ensaio ganhou densidade reflexiva: o que acontece quando a clínica não busca extinguir o fogo psíquico, mas oferecer um recipiente capaz de acolhê-lo e transformá-lo?

 

Como se fosse ontem, recordo-me de um menino de nove anos que entrou em minha sala trazendo uma raiva muito grande. A queixa principal foi apresentada pela mãe, pouco tempo após a separação dos pais. Entre lágrimas e impotência, ela me disse algo que nunca esqueci: "Estou perdendo meu filho. Não consigo mais me aproximar dele".

 

Ele parecia tomado por algo maior do que ele mesmo. Explodia com a mãe, apresentava dificuldades importantes no comportamento e reagia com intensa agressividade. Pouco tempo antes, sua vida havia mudado radicalmente. A mãe saíra de casa levando o filho consigo, enquanto o pai permanecera no apartamento onde ele havia nascido. Tudo aquilo que lhe era familiar havia sido abruptamente transformado.

 

Durante alguns meses no setting terapêutico, tive a impressão de que ele me testava constantemente. Era como se cada atendimento fosse uma prova. Ele verificava, a cada encontro, até onde eu suportaria permanecer. Se aquele espaço seria capaz de acolher algo da intensidade que carregava dentro de si.

 

O menino entrava na sala sempre arredio e inquieto. Porém muitas vezes o que se imagina diante de quadros de agressividade infantil, é não desafiar regras. Conversava adequadamente, era inteligente, curioso e demonstrava uma necessidade intensa de compreender tudo ao seu redor. Diante de qualquer pergunta ou intervenção, respondia quase imediatamente:

 

"Para quê?"

 

"Por quê?"

 

Até que, em uma sessão, construímos uma história (Figura 1). Dessa história surgiu a imagem de um pequeno dragão. Apesar de seu tamanho reduzido, ele lançava uma enorme labareda, desproporcional ao próprio corpo. Havia muita raiva naquele fogo.

 

Foi então que ele me perguntou:

 

— Eu posso ter raiva?

 

Em seguida, perguntou se eu também tinha raiva.


Figura 1:Construção da história: surgimento do dragão, labareda e travessia pelo portal. Sequência de produções gráficas realizadas durante o processo.  Acervo da autora (2022).

 

Respondi que sim. Que a raiva, assim como o medo, a alegria ou a tristeza, era um sentimento humano. Todos nós sentimos raiva. O importante não era não senti-la, mas encontrar modos de reconhecê-la e expressá-la sem destruir a si mesmo ou ao outro.

Na história criada por ele, o pequeno dragão atravessava um portal. Do outro lado, parecia existir um mundo paralelo, um lugar onde aquele dragão podia voar, existir e lançar para fora toda a intensidade que carregava. Talvez ali coubessem a agressividade, o medo e a confusão diante de acontecimentos que ele ainda não conseguia compreender plenamente.

 

Logo depois, propus que amplificássemos aquela imagem. Ofereci-lhe uma folha A3. Ele pediu outra. E mais outra. E mais uma. Ao final, o dragão ocupava cinco folhas. Tornara-se imenso. Com lápis de cera e bastões, escolheu tons de preto e roxo. Rabiscava com força, repetidas vezes, preenchendo o corpo daquele dragão (Figura 2).

 

Em determinado momento, pediu que eu o ajudasse a pintar. Enquanto eu coloria parte de uma das asas, ele continuava seu trabalho vigoroso, mergulhado naquela criação. A cada traço, eu tinha a sensação de que ele se aproximava mais de si mesmo. Como se pudesse reconhecer naquele dragão algo que lhe pertencia. Como se dragão e menino fossem, naquele instante, expressões de uma mesma realidade psíquica.

 

Curiosamente, à medida que o dragão crescia, a labareda diminuía. O fogo que, inicialmente, parecia maior do que a criatura que o carregava, tornava-se mais proporcional à sua forma. A imagem parecia dizer que tudo bem sentir raiva. Que era possível carregar fogo sem ser consumido por ele. Que ele podia, em alguns dias, sentir-se dragão. E que, mesmo assim, esse fogo poderia encontrar contorno, testemunho e continência.

 

Figura 2: Amplificação da imagem do dragão. Fonte: Acervo da autora 2022
Figura 2: Amplificação da imagem do dragão. Fonte: Acervo da autora 2022

O calor alquímico do encontro: da atuação à simbolização

 

Através do caso apresentado, considero que as perguntas que surgiram no setting, como “para quê?” e “por quê?” expressassem mais do que curiosidade. Pareciam uma tentativa de manter tudo sob controle. Como se compreender racionalmente cada movimento fosse uma forma de não se perder diante das transformações que vinham atravessando a sua vida. Havia pouco espaço interno para o desconhecido. Entrar em contato com aquilo que sentia parecia ameaçador, como se pudesse desencadear algo impossível de conter.

 

Ao conseguir representar o dragão, a travessia do portal, o cliente finalmente entrou em processo terapêutico. Até então, a intensidade afetiva parecia manifestar-se sobretudo através de atuações, explosões e tentativas de controle. Com o aparecimento do dragão, algo dessa experiência encontrou forma. O afeto deixou de existir apenas como descarga e passou a apresentar-se como imagem, inaugurando a possibilidade de uma relação simbólica com aquilo que antes apenas invadia.

 

Também me chama atenção, o fato de que ele me pediu para pintar uma das asas. Até então, eu precisava provar que suportaria o fogo que ele trazia. Naquele momento, porém, ele dividiu o dragão comigo. Eu não pintei o dragão inteiro; pintei apenas parte de uma das asas. Talvez seja exatamente isso que a clínica, faça: não toma para si o fogo do outro, não o apaga, não o controla. Apenas ajuda a sustentar uma parte da travessia enquanto a própria criança descobre que pode habitar o seu dragão sem ser destruída por ela.

 

O fogo sem recipiente: quando a energia psíquica transborda

 

Antes do surgimento do dragão, o que se apresentava era uma intensa agressividade. Explosões, necessidade de controle e dificuldades em nomear os próprios afetos pareciam expressar uma energia maior do que a capacidade psíquica disponível para contê-la. A partir da perspectiva junguiana, a agressividade não constitui, em si mesma, um elemento patológico, mas uma manifestação da energia psíquica em busca de vias de elaboração.

 

Jung compreende a libido como energia psíquica geral, suscetível a deslocamentos e transformações, afirmando que ela "não é apenas impulso sexual, mas energia psíquica em sentido amplo" (Jung, 2013a, p. 4). Quando essa energia não encontra formas simbólicas de expressão, pode manifestar-se por meio de atuações, intensificações afetivas ou sintomas. Talvez o sofrimento daquela criança não estivesse relacionado ao excesso de raiva, mas à ausência de recursos simbólicos capazes de oferecer forma e continência à intensidade que a atravessava.

 

Nesse sentido, o fogo não era o inimigo. O problema residia na ausência de um recipiente capaz de acolhê-lo.

 

Na tradição alquímica, o vas hermeticum ou vaso alquímico ocupa um lugar central no opus. Trata-se do recipiente fechado no qual a prima materia é depositada para que possa ser submetida às sucessivas transformações da obra. Diferentemente do atanor, responsável por manter o calor constante necessário ao processo, o vaso oferece continência àquilo que está sendo transformado. É nele que os elementos permanecem reunidos, suportando tensões, decomposições e recombinações sem que a matéria se disperse ou se perca. Sem recipiente, não há transmutação possível; há apenas dissipação ou destruição.

 

Ao aproximar essa imagem da clínica, Jung compreende o vaso alquímico como uma metáfora privilegiada do campo analítico, um espaço protegido no qual conteúdos psíquicos intensos podem emergir, ser sustentados e gradualmente elaborados. Em Mysterium Coniunctionis, ao comentar o simbolismo do vas hermeticum, Jung destaca que a matéria precisa ser encerrada no vaso e aquecida para que a transformação aconteça: " Ele deve ser encerrado no vaso hermético e aquecido..." (JUNG, 2013b, p.390)[2]. A imagem sugere que não é o fogo, isoladamente, que transforma, mas a relação entre calor e continência.

 

Essa compreensão encontra ressonância em uma reflexão de Marie-Louise von Franz (2022, p. 40), ao afirmar que não podemos nos relacionar humanamente com uma "bola de fogo". Diante de uma força natural dessa magnitude, podemos observá-la, estudá-la ou mantê-la à distância "capturá-la numa redoma de vidro", mas não estabelecer com ela uma relação propriamente humana. Enquanto permanece como fenômeno bruto, ela escapa à elaboração consciente. Talvez seja justamente esse o desafio clínico: favorecer a passagem da energia indiferenciada para uma forma simbólica com a qual seja possível estabelecer diálogo e reconhecimento.

 

Ao revisitar o encontro com o menino e seu dragão, essa imagem adquire especial significado. Inicialmente, a raiva apresentava-se como uma espécie de bola de fogo: intensa, desproporcional e impessoal, maior do que a própria capacidade psíquica da criança de reconhecê-la e nomeá-la. O sofrimento era vivido como força da natureza, manifestando-se sob a forma de explosões e atuações. A bola de fogo ganhou corpo, olhos, asas e nome. Tornou-se dragão. E foi somente quando deixou de ser puro fenômeno para adquirir uma face que o menino pôde perguntar: "Eu posso ter raiva?".

Na clínica, talvez possamos dizer que o sofrimento psíquico necessita não apenas de intensidade, mas de um espaço suficientemente seguro para que aquilo que transborda possa adquirir forma, significado e possibilidade de transformação.

 

Nise da Silveira (2015), ao descrever a experiência dos ateliês do Museu de Imagens do Inconsciente, observou que as atividades expressivas ofereciam oportunidade para que "as imagens do inconsciente e seus concomitantes motores encontrassem formas de expressão". Para ela, desenhar, pintar e modelar não constituíam atividades secundárias ou recreativas, mas vias privilegiadas de aproximação dos dinamismos psíquicos profundos. A imagem não era tomada como simples ilustração do sofrimento, mas como manifestação viva de processos internos em curso, capaz de favorecer movimentos de reorganização da vida psíquica.

 

Entretanto, a emergência da imagem não ocorria apenas pela presença dos materiais expressivos. Nise da Silveira (2015) ressaltava a importância da qualidade afetiva da relação estabelecida com aqueles que criavam, compreendendo que determinadas transformações dependiam menos da imposição de interpretações do que da existência de uma presença humana capaz de acolher, testemunhar e sustentar o aparecimento do novo. Ao utilizar a expressão afeto catalisador, referia-se justamente à potência transformadora do vínculo: uma presença suficientemente confiável para favorecer processos espontâneos de reorganização psíquica sem violentar o ritmo próprio da experiência.

 

Talvez tenha sido isso que se desenhava silenciosamente naquele encontro. Durante meses, o menino me testava, aproximando-se e afastando-se, como se precisasse verificar se aquele espaço suportaria a intensidade que carregava dentro de si. Antes de confiar o dragão ao papel, precisava descobrir se haveria alguém disposto a permanecer diante do fogo. O símbolo não nasceu apenas dos materiais expressivos, nem exclusivamente da interpretação. Nasceu do encontro entre uma energia psíquica que buscava representação, a matéria concreta oferecida pela Arteterapia e uma relação suficientemente segura para testemunhar sua emergência.

 

Nessa perspectiva, talvez resida uma das funções transformadoras da clínica arteterapêutica. Como afirma Jung (2013c), o símbolo constitui a melhor expressão possível de algo ainda desconhecido pela consciência. O dragão não explicava a raiva; ele permitia que a criança começasse a relacionar-se com ela. A imagem não eliminava o afeto, tampouco o domesticava. Oferecia-lhe uma forma, um contorno e a possibilidade de ser reconhecido como parte da experiência humana. Talvez tenha sido esse o primeiro gesto de transformação: aquilo que antes irrompia como pura intensidade pôde, finalmente, ser visto, nomeado e compartilhado.

 

Na história criada por ele, o pequeno dragão atravessava um portal. Do outro lado, parecia existir um mundo paralelo, um lugar onde aquele dragão podia voar, existir e lançar para fora toda a intensidade que carregava. Talvez ali coubessem a agressividade, o medo e a confusão diante de acontecimentos que ele ainda não conseguia compreender plenamente.

 

A imagem do portal permite aproximar-nos daquilo que Jung denominou função transcendente. Como afirma o autor, “A tendência do inconsciente e da consciência são os dois fatores que formam a função transcendente. É chamada transcendente, porque torna possível organicamente a passagem de uma atitude para outra, sem perda do inconsciente” (Jung, 2020 p.18). Longe de representar uma superação mágica dos conflitos ou a eliminação dos opostos, a função transcendente refere-se ao movimento psíquico que possibilita o diálogo entre conteúdos conscientes e inconscientes, favorecendo o surgimento de novas possibilidades de relação com a experiência vivida. Trata-se de uma ponte entre os sistemas interno e externo, aproximando conteúdos do consciente e do inconsciente em direção a uma melhor regulação psíquica e a uma maior fluidez da energia.

 

Pode-se dizer que a "máquina psicológica" responsável pela transformação da energia é o símbolo. Segundo Jung (2013c), o símbolo constitui o elemento transformador que redireciona a energia psíquica, fazendo-a fluir de um foco para outro. Quando essa energia é transferida para um novo objeto simbólico, passa a exercer influência sobre a psique, ativando a imaginação. Como afirma JUNG (2013c, p.207), “é como se ela tivesse descoberto de repente, nas profundezas do inconsciente, um objeto que a atrai enormemente”. Esse novo símbolo passa, então, a ocupar um lugar antes tomado pela fixação, pela atuação ou pela unilateralidade. Nesse momento, ocorre um redirecionamento da energia psíquica em um movimento de progressão.

 

Talvez seja possível compreender o dragão e o portal a partir dessa perspectiva. Antes, a energia parecia aprisionada em explosões de raiva, tentativas incessantes de controle e dificuldades de simbolização. Ao atravessar o portal, o dragão não abandonava o fogo que carregava, tampouco deixava de ser dragão. O que se transformava era a relação estabelecida com essa intensidade. A agressividade, antes vivida como pura atuação, encontrava um caminho imagético capaz de colocá-la em movimento. O símbolo tornava-se passagem.

 

Assim, a função transcendente não se expressa na eliminação do conflito, mas na criação de uma terceira possibilidade. Entre descarregar impulsivamente a raiva e negá-la completamente, surgiu o dragão. Entre a atuação e o silêncio, apareceu a imagem. E talvez tenha sido justamente nessa travessia que a criança pôde começar a reconhecer o próprio fogo sem ser consumida por ele.

 

Em determinado momento do processo terapêutico, foi proposto ao menino que amplificasse a imagem do dragão que vinha aparecendo em suas produções. Trata-se de um recurso frequentemente utilizado na Arteterapia e em abordagens de orientação junguiana, no qual se convida o paciente a permanecer junto à imagem, explorando seus desdobramentos, ampliando suas características e aprofundando a relação com o símbolo emergente.

 

Até então, o dragão aparecia em proporções reduzidas. A partir dessa intervenção, passou a ocupar sucessivas folhas, expandindo-se até tomar quatro ou cinco páginas. Tornou-se enorme, com corpo robusto, asas extensas e presença imponente. Pela primeira vez, parecia possível dar forma e medida à dimensão daquilo que era vivido internamente. Aquilo que antes encontrava expressão sobretudo pela atuação pôde, então, ser representado em sua verdadeira magnitude.

 

Tal transformação sugere que a amplificação da imagem não correspondeu a uma intensificação destrutiva da agressividade, mas à ampliação da capacidade psíquica de representá-la. O dragão cresceu porque a psique encontrou condições para olhar, sustentar e reconhecer a dimensão do sofrimento que o habitava. A imagem ofereceu um continente para uma experiência afetiva que, até então, só encontrava vias de expressão pela atuação. E, assim de certa forma, pela literalidade.

 

Ao retomar o simbolismo alquímico, Jung observa que muitas experiências psíquicas profundas não encontram expressão adequada na linguagem conceitual. Em Psicologia e Alquimia, afirma que "aquilo que não se podia exprimir ou se exprimia apenas imperfeitamente através da palavra escrita, o alquimista traduziu em suas imagens" (Jung, 1991, p. 11). As imagens não surgem, portanto, como ilustrações secundárias de algo previamente conhecido, mas como veículos privilegiados do processo transformador. O que ainda não pode ser pensado, muitas vezes pode ser desenhado.

 

O menino não diminuiu o dragão; pôde amplificá-lo. E o crescimento da imagem parece ter oferecido uma medida mais próxima da intensidade afetiva vivida. Nomear a própria raiva, reconhecer sua existência e atribuir-lhe uma forma simbólica não significou tornar-se menos agressivo, mas menos capturado pela necessidade de atuar a agressividade.

 

Ao final, não foi o desaparecimento do dragão que indicou transformação, mas a possibilidade de coexistir com ele. Sem deixar de ser dragão, aprendeu a carregar o próprio fogo.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

Ao longo deste ensaio, buscou-se refletir sobre a função transformadora do símbolo na clínica arteterapêutica orientada pela Psicologia Analítica, tomando como eixo o encontro com uma criança cuja agressividade parecia exceder sua capacidade de compreensão e elaboração. A partir do diálogo entre a Psicologia Analítica, a alquimia e a experiência clínica, tornou-se possível acompanhar o percurso de uma energia que, inicialmente, apresentava-se como intensidade invasiva e aparentemente sem contornos, até encontrar formas mais simbólicas de expressão. O encontro clínico aqui apresentado convida-nos, assim, a reconsiderar o lugar dos afetos intensos na prática terapêutica. Em vez de compreender a agressividade apenas como um comportamento inadequado a ser controlado ou eliminado, a perspectiva simbólica permite reconhecê-la como expressão de uma energia psíquica que busca formas de representação, elaboração e transformação.

 

A partir do surgimento espontâneo da imagem de um dragão, foi possível acompanhar um movimento de transformação que não ocorreu pela supressão da raiva, mas pela ampliação da capacidade de simbolizá-la. O pequeno dragão, inicialmente acompanhado de uma labareda desproporcional ao seu tamanho, atravessa um portal, cresce, ocupa espaço, ganha nome e encontra testemunho. Curiosamente, à medida que a imagem se fortalece, o fogo encontra medida.

 

A alquimia oferece uma metáfora fecunda para pensar esse processo. A matéria-prima não é descartada; é trabalhada. O fogo não é extinto; é aquecido, sustentado e regulado. O atanor não constitui mero cenário da transformação: ele participa da obra. O calor excessivo pode consumir a matéria; o calor insuficiente pode impedir que a transformação aconteça. A tarefa do alquimista consiste justamente em cuidar da temperatura adequada para que a transmutação seja possível.

 

Talvez o setting terapêutico possa ser pensado a partir dessa imagem: um espaço de acolhimento, continência e presença, capaz de sustentar a intensidade dos afetos sem negá-los ou expulsá-los. Um recipiente suficientemente seguro para que aquilo que chega em estado bruto possa, pouco a pouco, encontrar forma, linguagem e sentido. O símbolo não se reduz a uma explicação racional, mas é acompanhado em seus desdobramentos, permitindo seu trabalho transformador. Algumas imagens parecem antecipar aquilo de que a psique necessita.

 

Talvez a principal contribuição deste ensaio seja recordar que o objetivo da clínica não consiste em apagar os dragões da alma. Há dragões que surgem como guardiões daquilo que ainda não pôde ser reconhecido, nomeado ou vivido. Combatê-los prematuramente pode significar perder o acesso ao tesouro que protegem.

 

Não se trata de usar Jung para explicar o menino, mas de permitir que o menino, através do dragão, faça Jung falar de outro jeito. O encontro clínico recorda que os conceitos da Psicologia Analítica não existem apartados da vida. Eles ganham sentido quando ajudam a compreender a singularidade da experiência humana e, ao mesmo tempo, são transformados por ela.

 

Retomando a questão que atravessa este trabalho, podemos nos perguntar de que modo a clínica pode acolher o fogo psíquico sem buscar apagá-lo, favorecendo sua transformação em experiência simbólica. A partir do caso apresentado, é possível pensar que alguns afetos não precisam ser combatidos ou negados, mas encontrar continência, testemunho e linguagem simbólica para que possam participar do processo de transformação da vida psíquica.

 

Permanece, ao final, a imagem de um dragão que, sem deixar de ser dragão, aprende a carregar o próprio fogo.

 

Referências

 

FRANZ, Marie-Louise von. Alquimia: uma introdução ao simbolismo e à psicologia. Petrópolis: Vozes, 2022.

SILVEIRA, Nise da. Imagens do inconsciente. Rio de Janeiro: Alhambra, 2015.

JUNG, Carl Gustav. Psicologia e alquimia. 4. ed. Petrópolis: Vozes, 1991.

JUNG, Carl Gustav. A energia psíquica. Petrópolis: Vozes, 2013a. ed. Petrópolis: Vozes

JUNG, Carl Gustav. Mysterium Coniunctionis: pesquisas sobre a separação e a composição dos opostos psíquicos na alquimia. Petrópolis: Vozes, 2013b. (Obras Completas de C. G. Jung, v. 14/2), p. 390.

JUNG, Carl Gustav. Símbolos da transformação. 9. ed. Petrópolis: Vozes, 2013c.

JUNG, Carl Gustav. A natureza da psique. 14.ed. Petrópolis: Vozes, 2020. 



[1] Psicóloga e Arteterapeuta Junguiana (UBAAT/AARJ 704/0316). Especialista em Psicologia Hospitalar (UVA). Pós-graduada em Arteterapia (POMAR) e Psicologia Analítica (IJEP). Analista em formação pelo Centro de Estudos Junguianos Analistas Associados (CEJAA). Membro fundadora do coletivo de Arteterapeutas do Rio de Janeiro.


[2] "He must be enclosed in the vas Hermeticum and heated..." (livre tradução da autora).





 



 
 
 

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